
O alerta que dá título a este artigo, sobre a pessoa que não lê, foi um vaticínio do escritor e matemático brasileiro Malba Tahan. Enfático, para ele, quem não lia era quase surdo, mudo e cego. A falta de interesse do brasileiro pela leitura já era assunto recorrente. Em 1905, o poeta Olavo Bilac, percebendo que ninguém lia suas crônicas nem as de seus colegas, acordou: “Se ninguém as lê, lêmo-las nós”. A nação continua lendo cada vez menos livros e se satisfazendo com manchetes de jornais. O alerta está em pesquisas recentes, como Retratos do Brasil, do Instituto de Verificação de Comunicação e Pesquisa Brasileira de mídias.
Bilac, como nós hoje, escrevia para poucos, falava para o vazio e lamentava que a palavra escrita fosse engolida pela pressa, superficialidade e indiferença cultural. Cento e vinte anos depois, o problema persiste, apenas com nova embalagem. Quando Bilac denunciou a falta de leitores, falava de um país com 65% de analfabetos. Em 1904, desabafou: “O Brasil é um país de analfabetos que se governa por meio de jornais que ninguém lê, e de leis que ninguém cumpre” (Crônicas e Novelas).
Ler é ato de formação humana, construção do pensamento crítico e libertação intelectual. Quem lê amplia vocabulário, aprende escrever, duvidar, comparar e contextualizar. Aprende a pensar. Os grandes saltos civilizatórios sempre caminharam com os livros. Não por acaso, regimes autoritários temem leitores, pois um povo que lê pensa, questiona e não se satisfaz com respostas prontas. Já o povo que não lê torna-se presa fácil do simplismo, da desinformação, do populismo e da manipulação.
Hoje, paradoxalmente, nunca tivemos tanto acesso à informação e tão pouco aprofundamento. Confunde-se leitura com rolagem de tela, conhecimento com manchete, sabedoria com opinião rasa. A grande mídia substituiu análise por entretenimento, debate por polarização e informação por espetáculo. Resultado: a leitura longa, reflexiva e crítica foi derrotada pelo imediatismo da manchete e pela lógica do clique. Temos um cidadão pouco informado e omisso.
O desmonte da leitura se faz desestimulando o pensamento. Escolas sucateadas, professores desvalorizados e bibliotecas fechadas revelam que pensar dá trabalho para quem prefere governar pela simplificação. Como Bilac intuía, quando faltam leitores, sobra retórica. Quando o Estado abdica de formar leitores, abdica da ideia de nação consciente.
Se Bilac estivesse entre nós, afirmaria: sofremos com analfabetismo funcional por escolha, onde alfabetizados descartam a leitura em favor do consumo rápido de algoritmos. Corremos o risco de nos tornar um país de leitores de telas, que absorvem muito volume de informação com pouca retenção e reflexão.
Obrigado, poeta Olavo Bilac, pela preocupação com o povo brasileiro.
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