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Autismo pode ser fruto da evolução biológica do cérebro humano, dizem cientistas

de Jornal Contexto
12 de janeiro de 2026
em Ciência, Pesquisa
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Cientistas reavaliam o autismo como um possível produto da seleção de habilidades cognitivas superiores humanas

A compreensão contemporânea do transtorno do espectro autista (TEA) atravessa um momento de ruptura paradigmática. Apesar de historicamente ser enquadrado principalmente sob a ótica de alterações cerebrais que dificultam a vida em sociedade, agora o autismo começa a ser reavaliado. Atualmente, novas correntes da Psicologia Evolucionista e da Genética de Populações apontam a possibilidade de se tratar de uma variação estratégica que está sendo mantida, e talvez até amplificada, pela seleção natural.

Afinal, esse transtorno de desenvolvimento, que costuma causar dificuldades de comunicação, de interação social e alterações sensoriais significativas, muitas vezes também está acompanhado de habilidades notáveis. Nesse sentido, o aumento de indivíduos com capacidades excepcionais de sistematização e reconhecimento de padrões sugere que o futuro da organização social humana poderá ser profundamente influenciado pela neurodivergência.

Genes e neurônios

A base para essa hipótese foi reforçada com o trabalho seminal de Starr e Fraser, da universidade de Stanford, publicado recentemente na revista científica Molecular Biology and Evolution. Em primeiro lugar, os autores fornecem um mecanismo celular preciso dessa mudança através da análise de um tipo de neurônio excitatório do neocórtex, algo crucial para a cognição humana complexa. Eles descobriram que esses neurônios evoluíram em uma velocidade excepcionalmente rápida na linhagem humana, em comparação com outros primatas.

Além disso, o dado mais surpreendente observado é que essa evolução acelerada coincidiu com uma queda acentuada na expressão de genes cuja menor atividade está estatisticamente associada a um maior risco de diagnóstico de TEA. Isso indica que a evolução responsável por altas funções cognitivas pode ter tido como trade-off evolutivo a redução na expressão de genes protetores do neurodesenvolvimento. Ou seja, as mesmas pressões seletivas que refinaram a inteligência humana aumentaram, como subproduto, a prevalência de traços autísticos.

Indícios e teorias

Um fenômeno que corrobora essa visão evolutiva é o aumento expressivo na prevalência do autismo. Atualmente, dados do Centro de controle e prevenção de doenças dos Estados Unidos (CDC) indicam que 1 em cada 36 crianças é diagnosticada dentro desse espectro. Embora parte desse crescimento se deva à mudança nos critérios diagnósticos, há um debate na comunidade científica sobre outros fatores contribuintes.

Diferente de hipóteses sem comprovação, os dados de Star e Fraser sugerem um aumento real impulsionado por mecanismos genéticos. Por outro lado, o psicólogo Simon Baron-Cohen propôs a teoria do acasalamento assortativo. Segundo ela, a sociedade moderna facilita a união reprodutiva entre indivíduos com perfis “sistematizadores” semelhantes. Consequentemente, ocorre um aumento na frequência de descendentes que herdam uma “dose dupla” de genes associados a altas habilidades, o que também eleva a probabilidade de manifestação do autismo.

Futuro neurodivergente

Mesmo que perfis com alto poder cognitivo sejam apenas uma parte do espectro, é necessário pensar sobre as implicações sociológicas de um cenário onde a neurodiversidade cresce. Caso a seleção natural favoreça cada vez mais o nascimento de gênios neurodiversos, o que é considerado o funcionamento cerebral típico de hoje pode se tornar o atípico de amanhã.

Entretanto, essa ideia não deve recair em argumentos sensacionalistas sobre “elites cognitivas”. Paradoxalmente, o reconhecimento da diversidade cerebral reforça o combate ao capacitismo, argumentando que o valor humano não depende de produtividade ou genialidade. Em conclusão, o autismo parece ser parte integrante da nossa evolução. Portanto, os sistemas educacionais precisam ser aprimorados urgentemente para garantir dignidade e espaço para todos os tipos de mentes.

*Esta matéria foi produzida a partir do artigo publicado originalmente no The Conversation sob licença Creative Commons; leia o conteúdo original na íntegra.

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