Escândalos sempre surgiram na sociedade brasileira, marcada desde a época do Império por uma corrupção endêmica. É uma lástima termos de lidar, periodicamente, com tantos abusos. Por ser algo corporativo, é ainda mais diabólico porque é um traço cultural maligno e destrutivo que corrói não apenas os recursos públicos, mas algo ainda mais profundo: o caráter e o valor da integridade.
Rui Barbosa, numa célebre frase proferida em 1914 disse: “De tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar da virtude, a rir-se da honra, a ter vergonha de ser honesto”. A frase reflete a desilusão ética diante da corrupção e da incompetência. É o triunfo da injustiça e da desonra levando o homem a desanimar da virtude.
O “caso master” – seja ele considerado um escândalo de corrupção sistêmica, abuso de poder ou a queda de uma figura que detinha o “domínio” (o mestre) sobre um grupo — funciona como um solvente social. Não apenas fere as vítimas diretas, mas corrói a “cola” que mantém a sociedade unida: a confiança e o caráter. Afinal, “não existe pecado do lado de baixo do Equador.”
Os estilhaços desta imensa fraude, tida como a maior da História, atinge quem deveria guardar a honra e a lei e o primeiro efeito coletivo é o cinismo. As pessoas param de acreditar na possibilidade da virtude: “Se até quem detinha o conhecimento e o poder fez isso, por que eu deveria ser honesto?”
O perigo não é apenas o crime em si, mas o que ele comunica: a integridade é uma ilusão para os tolos. Absorver essa mensagem e adotá-la desidrata a moralidade pública mais rápido que a falta de água desidrata o corpo.
A moral coletiva se baseia em modelos. Quando eles viram estilhaços, a sociedade perde o Norte. Casos de grande repercussão tendem a anestesiar a consciência coletiva. O escândalo de hoje vira a piada de amanhã e o esquecimento de depois de amanhã. A moral coletiva se torna “elástica”, aceitando comportamentos que antes seriam impensáveis.
Há ainda outro risco: o de a sociedade focar na punição legal – se os infratores serão presos – e ignorar a reforma moral – por que permitimos que um escândalo desta envergadura chegasse a esse ponto?
Podemos punir os responsáveis, o que de certa forma já seria muito salutar, mas sem mudar a cultura de complacência, da malandragem e da corrupção que a criou. Quando a sociedade entra nesta dinâmica perversa de “levar vantagem em tudo”, de “ter sucesso a qualquer custo” e de “encontrar atalhos éticos”, isso é incorporado endemicamente e passa a justificar tudo.
Algumas perguntas cruciais podem ser feitas: O “caso master” é um acidente de percurso ou o sintoma final de uma sociedade que considera o sucesso mais importante que o caráter? Como esse “incidente”, atrelado a tantos outros desmandos, pode afetar a moral coletiva, a forma social que escolhemos para viver?
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