Durante o período da colonização africana pela Grã-Bretanha um dos lemas mais efetivos foi “Dividir para Governar” (Divide et Impera) e ele foi aplicado com precisão cirúrgica. Para a Inglaterra, controlar um continente vasto e diverso não era uma questão de força bruta, mas de gestão da desunião.
Para a efetividade desta estratégia, alguns pilares foram implementados e seus efeitos na se mostraram eficazes e profundamente perniciosos na estrutura das nações africanas, sendo percebidos ainda hoje. Criou-se o “governo indireto”. Em vez de colocar oficiais britânicos em cada aldeia, a Inglaterra utilizava autoridades locais (chefes e reis) como intermediários. Ao dar poder a certos líderes tradicionais e ignorar outros, os britânicos criaram uma nova elite local dependente da coroa. Isso gerou um abismo entre os líderes “escolhidos” e a população, destruindo a coesão social que existia antes da chegada europeia. O vizinho passou a ser visto como o usurpador de oportunidades.
A Inglaterra foi protagonista em desenhar fronteiras que ignoravam completamente as realidades geográficas e humanas. Grupos rivais foram mantidos dentro da mesma fronteira, enquanto grupos irmãos foram separados por linhas imaginárias. Essa “mistura forçada” garantiu que as futuras nações independentes estivessem ocupadas demais resolvendo conflitos internos para desafiar a hegemonia econômica britânica.
Esta estratégia deixou marcas profundas na moral coletiva dessas nações. Quando o colonizador saiu, as estruturas de desconfiança permaneceram. Muitas das guerras civis africanas do século XX e XXI não são “conflitos ancestrais”, mas sim o resultado direto de uma estratégia de poder que ensinou gerações que a sobrevivência de um grupo dependia da anulação do outro.
Este é um tema de extrema relevância para a análise social contemporânea. O conceito não é apenas uma estratégia militar ou colonial; é uma técnica de manipulação da psicologia das massas que altera profundamente a percepção ética de uma sociedade. É uma forma de engenharia social. Ao quebrar a unidade de um povo, o poder central não apenas enfraquece a resistência, mas altera a própria bússola moral da sociedade. Quando a desconfiança passa a ser a base das relações sociais, a moral coletiva sofre um processo de erosão. O “outro” deixa de ser um concidadão para se tornar ameaça.
O maior prejuízo dessa tática não é político, mas ético. O conceito de “bem comum” desaparece, sendo substituído pelo interesse de grupo. É o fim da empatia: Quando somos ensinados a dividir o mundo entre “nós” e “eles”, a ética torna-se elástica. Passamos a desculpar erros graves no “nosso lado” e a demonizar virtudes no “lado deles”, dando lugar à sensação de que “tudo é um jogo de interesses”. Estamos ocupados demais vigiando uns aos outros para perceber quem realmente detém as rédeas.
Esta é a do Brasil. A polarização crescente não permite o bem comum. Os interesses políticos, incluindo o poder e os recursos, só devem servir para o meu partido ou grupo. Neste sentido, quanto pior for a administração, melhor para o meu grupo político. Perde-se a construção social harmônica, e enfatiza-se a força de um grupo ou outro. Entretanto, como disse Jesus: “Uma casa dividida contra si mesma, não subsiste.” Se a estratégia do poder é dividir para enfraquecer, a resposta da sociedade deve ser unir para fortalecer. Rejeitar a retórica da divisão é o primeiro passo para reconstruir uma sociedade onde a confiança não seja um artigo de luxo, mas o alicerce da convivência.
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