
O bispo sul-africano Desmond Tutu, prêmio Nobel da Paz, disse certa vez que “não há nada mais político do que afirmar que a fé nada tem que ver com a política”. Tentar separar fé e política é a mesma coisa que tentar dissociar o espírito do corpo. A Igreja de Cristo está inserida na sociedade e as questões políticas são intrínsecas ao homem e ao meio em que atua como ser social. A política está naquilo que vivemos, projetamos para nosso futuro e de nossos filhos, desenvolvemos para a comunidade cristã e na execução de atividades missionárias. Se politicamente uma nação, por meio de seus líderes, age com lisura e equidade, a justiça se faz e Deus ama a Justiça. De outro lado, se a injustiça permeia a sociedade, o povo sofre suas consequências diretamente, em especial aqueles que mais necessitam do amparo estatal para suas necessidades mais básicas como alimentação, saúde e moradia. Deus se compadece dos pobres e espera que os cristãos sejam agentes ativos em sua comunidade buscando o bem-estar de todos. Não há como negar que muitas questões políticas têm forte ligação com a religião e com a fé. São inúmeros os relatos bíblicos de cristãos envolvidos politicamente. A própria vida de Cristo sofreu implicações políticas diretas: Herodes temia perder o trono e, por isso, ordenou a matança de crianças, levando à fuga da família de Jesus (Mt 2:13-18); a prisão e condenação à crucificação também têm seus aspectos políticos relacionados à crescente popularidade do filho de Deus (Lc 23:1-43). E, ainda, antes e depois de Cristo são vários os personagens cristãos envolvidos com questões políticas, como José (Gn 41: 37-57), a monarquia de Israel, chegando a Daniel e seus amigos (Dn 1:3), a prisão de Paulo e Silas (At 16:16-24). Tais episódios mostram claramente que consagrados servos de Deus tiveram, na política, um canal de bênçãos para a população em geral. E assim deve ser a conduta dos cristãos contemporâneos. Em 1980, foi realizada na Inglaterra a Consulta Internacional Sobre Estilo de Vida Simples pelo Movimento Lausanne e, um dos tópicos do compromisso evangélico firmado defende que “a igreja, juntamente com o resto da sociedade, está inevitavelmente envolvida na política, que é ‘a arte de viver em comunidade’. Os servos de Cristo precisam expressar o senhorio dele em seus compromissos políticos, econômicos e sociais, e em seu amor por seu próximo, participando do processo político” (Viva a Simplicidade – Série Lausane, vl. 5 p. 35). O objetivo deste estudo é mostrar a necessidade de um envolvimento maior dos cristãos, visando cumprir o projeto definido por João Calvino, a saber: “A função da política é fazer com que as leis dos homens se aproximem da lei de Deus”. O cristão, em sua participação política, deve procurar proteger e defender os indefesos, pensando nos pobres e fracos, que constituem a maioria do povo. Existem aqueles que pervertem a função política, usando o poder para legitimar e promover a injustiça. No dizer do cantor João Alexandre, é “gente com tanto poder e nenhum coração; gente que compra e que vende a moral da nação”. Em meio ao caos da política, Deus quer agir e a ação divina acontecerá por meio de comprometimento de servos consagrados (a exemplo de José, Daniel e outros) e seu envolvimento real e em prol da Justiça.
Rev. Wildo Gomes é presidente e fundador da Missão Vida, instituição filantrópica pioneira no Brasil na área de recuperação de mendigos. Casado com Rosane, e pai de quatro filhos. Pastor e autor de treze livros. Já pregou em todas as capitais brasileiras e em mais de 42 países. Contatos: presidencia@mvida.org.br Fone: 62 3318 1985



