O capítulo 3 do livro de Eclesiastes — tradicionalmente atribuído ao rei Salomão, sucessor de Davi — atravessa séculos com uma ideia simples: tudo tem seu tempo. Mesmo fora do campo religioso, o texto se mantém atual por oferecer reflexão racional sobre ciclos, limites e equilíbrio humano, relevante em época marcada por pressa e instabilidade.
Por Vander Lúcio Barbosa
Vivemos sob a lógica do imediato. A produtividade virou medida de valor, redes sociais ampliam comparações e influenciadores vendem estilos de vida inalcançáveis. Soma-se o estresse do trânsito, a violência urbana, o desemprego, a inflação, a incerteza política e o excesso de informação. O resultado aparece no crescimento da ansiedade, depressão e do esgotamento emocional.
Eclesiastes 3 surge como contraponto a essa urgência permanente. Ao afirmar que há “tempo de plantar e tempo de colher”, o texto lembra que processos exigem maturação. Nem tudo acontece no ritmo desejado, e compreender isso pode aliviar a cobrança que tantas pessoas carregam.
Outro ponto atual está na ideia do “tempo de calar e tempo de falar”. Em ambiente dominado por opiniões e polarização, saber pausar e ouvir tornou-se forma de preservação mental. O silêncio, nesse contexto, deixa de ser ausência e passa a representar consciência.
Também existe o “tempo de perder”. A cultura contemporânea valoriza apenas vitórias, mas perdas fazem parte da experiência humana — seja emprego, relacionamento ou projeto. Aceitar essa realidade não significa desistir, mas compreender que fracassos reorganizam trajetórias.
A racionalidade do texto está em reconhecer que a vida é feita de alternâncias. Não há felicidade contínua nem sofrimento eterno. Essa percepção ajuda a reduzir o desespero diante das crises e da sensação de que tudo precisa ser resolvido imediatamente.
Ao observar fenômenos atuais — comércio religioso, prostituição online, vícios digitais, drogas e superficialidade nas relações — Eclesiastes não oferece fórmulas, mas lente de equilíbrio. Sugere que o tempo não é inimigo, e sim recurso a ser compreendido.
Talvez a principal lição seja simples: viver bem não é acelerar tudo, mas reconhecer o momento certo de agir, esperar ou recomeçar. Em era que confunde correria com progresso, esse texto antigo continua oferecendo reflexão atual — e chance de recuperar lucidez em meio ao caos cotidiano.
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