
Fato: Tenho uma neta cursando o 4º ano de medicina. Ao comentar com ela sobre uma entrevista recente do médico e gerontólogo Alexandre Kalache a uma revista de circulação nacional sobre o envelhecimento da população brasileira, perguntei-lhe se especializaria em geriatria. A resposta foi direta: “Não. Não gosto.” A conversa revelou-me um problema maior: apenas cerca de 10% das faculdades de medicina incluem a geriatria de forma estruturada em seus currículos. Ou seja, continuamos formando profissionais para um país jovem, quando a demanda crescente será por cuidados continuados, tratamento de doenças crônicas e atenção integral ao idoso.
Kalache é uma das vozes mais consistentes a alertar para uma realidade que o Brasil insiste em adiar: o envelhecimento acelerado da população. Projeções indicam que, em 2050, cerca de 30% dos brasileiros terão mais de 60 anos e não se trata de hipótese distante, mas de um processo já em curso, com impactos visíveis na saúde, na economia e na organização social. Porém, o problema não é envelhecer. É envelhecer sem enriquecer e sem se preparar. A pergunta inevitável surge: esta nação viverá de quê? Quem trabalhará para sustentar um número crescente de dependentes de assistência?
Evidente que o envelhecimento populacional impõe desafios que vão muito além da saúde. Afeta o mercado de trabalho, a previdência social, o desenho das cidades, a mobilidade urbana, a habitação e as relações familiares. Ainda assim, postergamos um debate público que raramente ocupa espaço nas agendas governamentais. Não por falta de informação. Os dados são conhecidos, os exemplos internacionais estão disponíveis. O que falta é liderança e visão estratégica de longo prazo.
Acontece que, nossas políticas públicas seguem fragmentadas, reativas e subordinadas ao calendário eleitoral, sempre visando às reeleições (uma praga nacional), em vez de orientadas pelas transformações exigidas, necessárias, demográficas e, também, pelos riscos do empobrecimento coletivo. A Previdência Social, com tendência sempre crescente, já consome parcela maior das receitas da União e tende a pressionar, cada vez mais, as contas públicas. Ficará inviável.
Diferentemente de países que se tornaram ricos antes de envelhecer, caminhamos para uma estrutura etária madura mantendo fragilidades em educação, renda e saúde pública. O resultado pode ser uma sociedade mais desigual, com famílias sobrecarregadas e serviços públicos incapazes de responder à nova realidade. A escolha é clara: envelhecer com dignidade ou assistir ao avanço da precariedade social.
O tempo para agir é curto e a omissão terá consequências. Envelhecer não é o problema; o problema é envelhecer mal. Compete ao Estado agir, formar profissionais em geriatria, adaptar o SUS e planejar políticas de longo prazo para previdência e assistência. O país já envelhece e empobrece. Falta amadurecer quem governa.
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