
E nosso país decidiu, em história recente, combater a desigualdade pelo caminho mais curto e diferente do resto do mundo: o diploma universitário. Para tanto, criou-se o programa “Universidade para Todos,” facilidades de financiamentos estudantis e ampliou o acesso ao ensino superior. Para sustentar esse projeto de massa, proliferaram faculdades privadas Brasil afora, sobretudo de Direito e, mais recentemente, Medicina. Só para comparação, temos, aproximadamente, 1300 faculdades de direito e o mundo todo, 1100; temos 490 faculdades de medicina, os EUA 211. Resultado: temos, nos dias de hoje, em torno de 4 milhões de bacharéis em direito e 600 mil médicos e formando ou diplomando mais de 50 mil por ano.
Ao mesmo tempo, desmontamos a profissionalizaçãodoEnsino Médio. Aquilo que nos anos 1960 e 1970 formava técnicos, contadores (sou um deles), eletricistas, mecânicos, desenhistas industriais e profissionais intermediários, deixou de existir. Sim, nosso Ensino Médio foi transformado em um vazio pedagógico: Não forma para o trabalho, não garante o preparo para a universidade e engana milhões de jovens com um currículo genérico e desconectado da realidade produtiva do país. O jovem sai com discurso, mas sem profissão. Com expectativa, mas sem futuro.
Ocorre que país sério não despreza o ensino técnico; planeja sua força de trabalho. Aqui, optou-se pela ilusão. Formamos bacharéis aos montes e ignoramos a base que sustenta qualquer economia competitiva. E, verdade, enquanto não encararmos essa realidade, continuaremos produzindo diplomas em série enquanto faltam profissionais e alimentando uma geração de nem nem, desmotivada para o trabalho e para os estudos. Resultado: baixíssima produtividade em todos setores da economia nacional.
Também como resultado, temos hoje engenheiros sem obra, advogados sem clientes, médicossem residência, e indústrias, hospitais e serviços sem técnicos competentes. A economia pede mão de obra especializada; o sistema educacional responde com mais diplomas genéricos. Enquanto isso, países da OCDE mantêm mais de 50% dos jovens no ensino técnico profissional. A Alemanha supera 70%. O Brasil mal alcança 10% Sim, não é atraso cultural. É uma escolha política que criou uma geração que acredita que sucesso passa por um diploma universitário, mesmo quando o mercado grita por técnicos, especialistas e profissionais bem treinados.
Porém, é consenso geral que o Brasil precisa de educação melhor, diversa e honesta que valorize tanto o jaleco quanto o macacão, tanto o diploma quanto a competência. Caso contrário, seguiremos produzindo aquilo que já produzimos em excesso: expectativas frustradas, subemprego qualificado e um país que estuda muito para trabalhar mal.
Sim, é preciso coragem política para dizer o óbvio, ainda que doa: universidade não épara todos, educação de qualidade, sim. Não é tarefa fácil em tempos de populismo. Porém, é urgente entender que valorizar o ensino técnico não é retrocesso; é maturidade. Planejar a formação da juventude não é elitismo; é responsabilidade histórica e enquanto insistirmos nesse modelo torto, seguiremos campeões em diplomas inúteis, estatísticas vazias. Um país que formou bacharéis demais e cidadãos de menos.
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