Vinte e dois ex-vereadores tentaram sem sucesso voltar à Câmara. Algumas derrotas obrigam uma autoanálise mais profunda das próprias carreiras
Marcos Vieira
Especial para o CONTEXTO
É tarefa inglória tentar decretar o fim de uma carreira na política. Uma vitória pode surgir após sucessivas derrotas, calando os coveiros de plantão. O que se pode fazer – e cabe ao jornalismo essa missão – é analisar o cenário após as urnas abertas e apresentar a realidade inquestionável dos números.
Entre os mais de 600 nomes que buscaram uma cadeira na Câmara Municipal de Anápolis na eleição deste ano, 22 já tiveram mandato. Alguns mais de uma vez. Outros já alçaram voos mais altos na política, com cargos no Legislativo estadual e disputas no Executivo. Nesse momento eles analisam o que deu errado e buscam a reconstrução de suas trajetórias.
O caso mais emblemático talvez seja do ex-presidente da Câmara Municipal (2009-2010) Sírio Miguel. No último dia 15 de novembro ele teve uma votação que não chega nem perto do seu pior resultado. Foram 178 votos pelo Podemos, quarto lugar em uma chapa de candidatos a vereador que não elegeu ninguém.
Sírio concorreu na eleição de 1996, quando teve 621 votos pelo PTdoB. No pleito seguinte, em 2000, alcançou 1.101 votos pelo extinto PGT. Em 2004, filiado ao PSB, teve 1.382 votos e foi diplomado suplente, mas acabou assumindo o mandato já no primeiro ano com a cassação do titular.
A disputa de 2008 foi seu auge: eleito com 1.764 votos. Ainda pelo PSB, ficou na suplência em 2012 com 1.493 votos. Depois, em 2016, no MDB, teve 501 votos. Agora, não conseguiu nem duas centenas de eleitores. Se ele pensa em não se candidatar mais? Crítico, talvez ele faça essa pergunta a si próprio nesse momento.
Outro ex-presidente da Câmara (2007-2008) que teve votação abaixo dos 500 votos foi Gérson Santana. Foram 473 votos para ser mais exato. Desde seu mandato de vereador de 2004 a 2008, ele nunca mais conseguiu ser eleito. Já tentou ser deputado e foi candidato a prefeito em 2012, com 3.236 votos.
O que diferencia os dois ex-presidentes é que Gérson cumpre bem o papel de presidente de partido – essa tarefa, inclusive, é um atenuante para que não consiga cuidar da própria campanha. Nesse pleito, por exemplo, à frente do Republicanos, viu a chapa conquistar duas cadeiras na Câmara.
Mas de fato a política é jogo complicado. José Rosa um dia fez parte dos vereadores mais comentados da cidade. Hoje alcançou 350 votos nas urnas pelo Avante e ainda saiu por aí nas redes sociais dizendo que seu desempenho estava ligado a fraudes fantasiosas de quem não aceita a derrota.
Também do Avante, Jerry Cabeleireiro parece não conseguir se livrar da pecha de vereador de um único mandato: no último dia 15 teve 372 votos. Paulo de Lima, hoje filiado ao PSB, conquistou 353 votos nesse pleito e passou longe de uma vitória – na derrota passada atribuiu o mau desempenho à concorrência do sobrinho, que também não teve sucesso em nenhuma das duas disputas.
O que dizer de Mirian Garcia, terceira mulher na história de Anápolis a conquistar uma vaga na Câmara? Vereadora em 1992, 2000, 2004, 2008 e 2012, ela não conseguiu voltar ao Legislativo: teve 593 votos pelo MDB. As médicas Gina Tronconi (585 votos pelo PP) e Dinamélia Rabelo (566 votos pelo PT) também amargaram novas derrotas.
O médico Gilberto Longhi – 571 votos pelo PP – também tenta há algumas eleições o retorno à Câmara. Já Márcio Jacob (PT) e Assef Naben (MDB) um dia desistiram de disputar a reeleição. A volta às urnas não surtiu efeito: 837 e 435 votos, respectivamente.
Mais casos
Quatro nomes que exerceram mandato entre 2012 e 2016, e perderam a reeleição em 2016, mais uma vez não conseguiram sucesso: Vespa (513 votos pelo SD), Pastor Wilmar Silvestre (907 votos pelo Republicanos), Sargento Alberto (656 votos pelo Republicanos) e Sargento Pereira Júnior (936 votos pelo DC).
Valmir Jacinto (PV), que um dia foi líder do prefeito Pedro Sahium na Câmara, na época em que assinava Cabo Jacinto, também saiu derrotado do processo eleitoral: 466 votos. Outro veterano em disputas que não consegue voltar ao Legislativo é Zé Chaveiro (615 votos pelo PSB neste ano).
Miguel Marrula teve papel importante na disputa para prefeito em 2016, como candidato a vice-prefeito do DEM. Agora, na tentativa de voltar a ser vereador, obteve somente 720 votos.
Dois casos são emblemáticos: os ex-deputados Carlos Antonio e Frei Valdair, nomes importantes da história política recente e que já disputaram a Prefeitura de Anápolis em partidos grandes, com diversos apoios e chances de vitória. Nenhum deles conseguiu se eleger vereador agora. Valdair teve 725 votos pelo PV e Carlos Antonio, 1.112 pelo DEM. Seria o recomeço (agora adiado) de suas trajetórias.
Lista
Na lista dos ex-vereadores derrotados, dois deles ainda guardam fôlego pelo resultado nas urnas: Eli Rosa e Gleimo Martins. O primeiro passou perto de ter a única vaga conquistada pelo PSC, com seus 1.355 votos. Já o segundo, filiado ao PP, no chamado grupo da morte, conquistou 1.381 votos. Ou seja, perderam, mas não parecem estarem fora do jogo.
Embora vereador atual, Mauro Severiano (PSC) é o grande símbolo do esgotamento de uma trajetória política. É inegável sua marca na história parlamentar da cidade, pois foram sete mandatos consecutivos, mas com insuficientes 853 votos agora, o veterano deixa o cargo em que estava desde 1992.
Serão mais quatro anos para cada um deles se preparar para nova eleição. Alguns devem desistir definitivamente. Tomar essa decisão talvez seja mais difícil do que lidar com a própria derrota.
