Contam que um homem obcecado por dinheiro, avesso à antropologia e habituado à prática da corrupção indagou entre companheiros de disputas eleitorais em tom queixoso: “Por que o povo reclama da corrupção, se as pessoas recorrem à malandragem com frequência para resolver seus problemas?” O primeiro erro do tal homem foi confundir malandragem com astúcia, que é a disposição natural de enganar os rivais ou adversários. O cachorro que esconde o osso e o coelho que engana a onça não são malandros, são sagazes. A leoa, que caça para alimentar a si mesma e os filhotes, é livre para procurar comida; todavia não deve atacar as vacas do fazendeiro.
Sabe-se, portanto, que a existência dos seres vivos depende igualmente da competição e da cooperação e que a conveniência de agir de um modo ou de outro é determinada pelas circunstâncias e sujeita-se a certos limites. Mesmo na guerra, que é o modo mais intenso (e lamentável) de competição, é necessário discernir entre os momentos de confronto inevitável e aqueles propícios à negociação. Mas, no Brasil, os oportunistas e os aventureiros que ascenderam aos cargos do poder político reduzem o exame da conveniência de seus atos à cogitação dos meios de se enriquecer percorrendo os atalhos da ilicitude, favorecidos por um sistema eleitoral que dilui a noção de responsabilidade pública nos artifícios da demagogia e da dissimulação.
Uma grande parte dos políticos brasileiros tornou-se tão indiferente aos fundamentos da arte de bem governar que não perceberam a influência que a liberdade de informação e os novos meios de comunicação exerceriam na evolução das relações do povo com as instituições públicas. Transformados em reféns do governo que cobra impostos com eficiência para sustentar o continuísmo político-partidário em detrimento da solução dos problemas do desenvolvimento, cidadãos de todas as idades veem com simpatia o protesto dos jovens clamando por mudança.
O baixo crescimento econômico, a inflação persistente, a deterioração dos serviços públicos, as denúncias de corrupção, a advertência do ministro Joaquim Barbosa sobre os partidos políticos e as manifestações de massa em junho sugerem a urgência da reforma política. Todavia, não se deve cogitar da implantação do parlamentarismo, como propõe o ex-presidente José Sarney, antes de se consolidar o apoio da maioria dos congressistas ao fim do voto obrigatório e à instituição do sistema distrital de eleição dos vereadores e deputados em todo o país.
A reforma política deverá ser também um momento de se acreditar que as soluções fundadas no princípio da livre interatividade são sempre melhores do que as de simples regulamentação. Considere-se o fracasso da lei anti-nepotismo, que não resolve o problema do excesso de comissionados no serviço público, e a lei da ficha limpa que não impede o aumento da corrupção. E, agora, a turma da brilhante ingenuidade movimenta-se em defesa do financiamento público das campanhas eleitorais, como se o comportamento dos candidatos pudesse ser “preservado da influência do poder do dinheiro”.
Na verdade, a democracia supõe a influência dos agentes econômicos em todos os momentos da vida política, sendo conveniente mesmo que o valor das doações obtidas por cada um dos candidatos seja divulgado como evidência da capacidade de obter apoio para suas propostas e, certamente, para a concretização das melhores soluções do ponto de vista do interesse público. Os desvios eventuais serão punidos com o rigor do poder judiciário, que se fortalecerá com a consolidação da democracia para tornar-se fator de manutenção da ordem sempre ameaçada pelo caos latente no ambiente aquecido pelas contradições.
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