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A indignação desbalanceada de um país

de Moacir Lázaro de Melo
13 de fevereiro de 2026
em Artigo
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Imagem: Reprodução

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Moacir de Melo

O recente e brutal episódio envolvendo o cão “Orelha” despertou uma onda de revolta que transbordou as redes sociais, alcançando manchetes internacionais. A crueldade contra um ser indefeso é, sem dúvida, um sintoma de uma humanidade adoecida e merece o rigor da lei. No entanto, o fenômeno da comoção nacional em torno deste caso levanta uma questão desconfortável: o que aconteceu com nossa indignação com a perda de vidas humanas que ocorrem diariamente em nosso país?

Verdade, vivemos em um país onde os números da violência são de guerra. De acordo com os registros mais de 120 pessoas são assassinadas no Brasil a cada 24 horas (2025). No trânsito, motoristas afoitos ceifam mais de 100 vidas por dia. São pais, mães e filhos que saem de casa e não retornam, tornando-se apenas mais um dígito em planilhas governamentais que mal chegam a ser lidas. E por que o silêncio diante desses números é tão ensurdecedor? Exatamente porque essas mortes não chocam, não mobilizam, não rendem editoriais e campanhas nacionais. Foram normalizadas.

No nosso transito perverso de cada dia e hora, motociclistas circulam sem regras, sem educação, sem fiscalização efetiva. O poder público assiste, a sociedade se cala e vidas são ceifadas sem revolta. Corpos no asfalto, tiros nas periferias, acidentes previsíveis deixaram de serem tragédias para virar rotina. Tornou-se o risco aceitável de se viver em sociedade. Já o animal (exemplo da Orelha), por sua incapacidade de defesa, ocupa um lugar de destaque não encontrado em um ser humano.

Mas atenção: meu ponto de visa expressado neste artigo não se trata de criar uma competição de dores ou de sugerir que o crime contra o animal deva ser ignorado. Pelo contrário: trata-se de manifestar que uma sociedade que se mobiliza mais por exceções do que por tragédias permanentes, adoeceu moralmente. Com a mesma mobilização popular, o mesmo clamor por justiça e a mesma pressão sobre o poder público para combater a impunidade no trânsito e a criminalidade urbana, com certeza não estaríamos aceitando passivamente o massacre diário de cidadãos Brasil afora,

Sim, é preciso reconhecer que uma sociedade que se mobiliza para salvar um animal, mas caminha indiferente sobre o sangue de humanos derramado no asfalto, precisa revisar seus valores. Que o caso “Orelha” nos sirva para punir os culpados, sim, mas que também nos desperte para a urgência de voltarmos a valorizar, com a mesma emoção, a vida de cada brasileiro que perdemos para a violência comum, diariamente.

É também importante reconhecer que o Brasil não perdeu a capacidade de sentir. Perdeu a capacidade de priorizar. E enquanto nos indignamos com casos isolados e ignoramos o massacre diário de pessoas, seguimos cúmplices de um país que aprendeu a conviver com a morte desde que ela não atrapalhe a programação. Ou a reeleição, o mal do país. Cruel!

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