Descoberta em projeto social em Anápolis, atleta acumula títulos em apenas dois anos de treinamento e já está classificada para o Campeonato Brasileiro
Aos 11 anos, Ana Lívia Silva Oliveira já sabe que o caminho até o pódio começa muito antes de entrar no tatame. É preciso disciplina, treino, dedicação e vontade de aprender. Descoberta em um projeto social no Bairro Laranjeiras, em Anápolis, a menina começou a praticar karatê há cerca de dois anos e, em pouco tempo, passou de aluna iniciante a uma das jovens promessas de sua categoria.
A trajetória começou no ASES, onde Ana Lívia teve a primeira experiência com a modalidade. “Eu comecei no projeto social entre uma empresa e a igreja, perto de casa, no Bairro Laranjeiras”, conta. Quem a levou foi a mãe Edileia Oliveira.

No início, houve timidez. Mas não demorou para que a menina descobrisse que havia encontrado algo de que realmente gostava. “Os treinos”, responde, quando perguntada sobre o que mais aprecia no karatê. Depois, acrescenta: “A disciplina”.
Talento descoberto
Foi no projeto social que o sensei Guedes Silvestre de Freitas percebeu que havia algo diferente naquela menina. Faixa-preta e há dez anos dedicado ao karatê, ele também é atleta e passou a acompanhar Ana Lívia mais de perto. “Ela já era aluna de outro professor, percebi o talento da menina, mas que estava sendo mal aproveitado”, relata. Depois de conversar com os pais, Ana Lívia foi para a academia de Guedes, onde começou um trabalho mais direcionado às competições.
O olhar técnico veio rapidamente. “Já foi nas primeiras aulas. Pela experiência que a gente tem no tatame, assim que percebi a movimentação dela, a agilidade, a compreensão da atividade… e o mais importante: ela tinha bastante vontade de aprender”. No karatê, há duas modalidades principais: o kata, de caráter performático, e o kumite, que envolve o combate. É nas lutas que Guedes identifica a maior qualidade da atleta. “O ponto forte dela é o kumite. Ela é uma atleta forte, rápida e tem um tempo muito bom de luta”, explica.

Resultados rápidos
Ana Lívia ainda é faixa azul e está no primeiro ano de competições, mas a evolução chamou atenção. Já conquistou títulos goianos e brasilienses e terminou a Copa do Brasil em terceiro lugar. Na segunda fase do Campeonato Goiano, obteve duas medalhas de ouro.
Para Guedes, a progressão é evidente, embora seja cedo para projetar limites. “Ela precisa adquirir mais maturidade competitiva, e isso só vai adquirir com a experiência em várias competições”. A própria atleta guarda com carinho a Copa Batai-kan, em Brasília, quando ganhou sua primeira medalha de ouro. “Foi a primeira que ganhei de ouro. Fiquei muito feliz”, lembra.
Ana Lívia conta que sente “felicidade, nervosismo, tudo junto” quando entra no tatame. O medo da estreia ficou para trás e ela encara a competição como parte da rotina. A rotina começa cedo. A menina estuda em período integral, das 7h às 17h, e treina à noite. Segunda, quarta e sexta-feira, na academia de Guedes; aos sábados, retorna ao projeto próximo de casa.
Muito além da luta
Os efeitos do esporte ultrapassam as competições. “Disciplina, trabalho em equipe, companheirismo, comportamento, respeito”, enumera Ana Lívia sobre o que aprendeu. Ela também relaciona a prática ao desempenho escolar. “Tenho mais comportamento, respeito e concentração”. O pai, José Alves, confirma a mudança. Segundo ele, a filha ficou ainda mais concentrada e a menor nota dela no semestre foi 9,5.
Para Guedes, esse é um dos papéis fundamentais das artes marciais. “Trabalhamos no dojo valores como respeito, responsabilidade, disciplina e pontualidade.”
A relação entre professor e atleta ganhou dimensão especial. Quando perguntada sobre quem a incentiva, Ana Lívia cita os pais e o sensei. Entre suas inspirações, inclui Guedes, a sensei Amanda e a atleta Maria Eduarda. “Fico muito emocionado de saber que a gente é valorizado por uma adolescente em formação”, diz Guedes.
Família no tatame
A evolução da menina mudou a rotina da família. O pai e a mãe se revezam para levá-la aos treinos e acompanham as competições. Compromissos do fim de semana passaram a ser ajustados ao calendário esportivo. “Nós tínhamos um churrasquinho no final de semana, mas tem competição, largamos tudo para acompanhar ela”, conta José Alves.
O pai trabalha na construção civil como pedreiro e mestre de obras. A mãe trabalha em uma indústria farmacêutica. A renda é limitada, mas os dois procuram fazer o possível para sustentar a trajetória da filha.

O ASES teve papel decisivo nesse começo. “Se não tivesse esse programa social, creio que ela não teria sido apresentada à arte marcial”, afirma José Alves. O projeto conta com apoio do Laboratório Geolab, que fornece quimonos e estrutura física. As despesas de viagens e inscrições, porém, ficam por conta da família.
Sonho maior
Ana Lívia está classificada para o Campeonato Brasileiro, em Brasília, de 19 a 22 de novembro. A etapa é uma oportunidade para acumular experiência e pontuação. O sonho dela é ainda maior. “Chegar ao Campeonato Mundial. Disputar Olimpíadas”, diz, sem hesitar. Para isso, sabe que precisará de apoio. “Preciso de um patrocínio. Uma parceria com uma empresa para me ajudar nas competições.”

A família já sentiu o peso da dificuldade. Ana Lívia não disputará o Pan-Americano no Pará por falta de recursos para a viagem. Guedes explica que o calendário envolve cerca de 12 etapas no ano. “O que falta hoje é apoio financeiro”, afirma, observando que nem sempre o atleta talentoso vira de alto rendimento devido à classe social. Ainda assim, vê futuro na menina. “Imagino que ela vai ter sucesso lá na frente. Se continuar se dedicando, o sucesso vai ser um fato.”
Ana Lívia também pensa no que fará se chegar lá: “Eu abriria um projeto social”. É uma resposta que revela o que o karatê já produziu nela. O ASES abriu a porta, o sensei ajudou a lapidar o talento e os pais mantêm o sonho em movimento. Aos 11 anos, Ana Lívia segue treinando para descobrir até onde seu talento pode levá-la.
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