O Brasil produz comida como poucos países no mundo. Mas também desperdiça como se a fome fosse um problema distante. Não é. Está entre nós, enquanto toneladas de alimentos ainda próprios para consumo são descartadas diariamente.
Por Vander Lúcio Barbosa
Basta olhar com atenção. Nas CEASAS, no Mercado do Produtor de Anápolis, nas feiras e nos sacolões, alimentos que poderiam estar na mesa acabam no lixo. Um tomate manchado, uma banana pequena, uma folha murcha. Não estão necessariamente estragados. Apenas não correspondem ao padrão de beleza que o mercado criou e o consumidor aprendeu a exigir.
É uma lógica difícil de explicar. De um lado, produtores trabalham, plantam, colhem, transportam e abastecem. De outro, uma parte dessa produção perde valor simplesmente porque não é bonita o suficiente para chegar à mesa.
Anápolis conhece bem esse paradoxo. Nossa região produz muito, movimenta a economia e ajuda a abastecer Goiás. Ainda assim, desperdiça. E desperdício de alimento não é apenas perda econômica. É também desperdício de água, energia, trabalho, transporte, terra e tempo.
Há iniciativas que mostram que esse cenário pode mudar. Desde 2004, Anápolis mantém um Banco de Alimentos que recolhe produtos que não serão comercializados, mas ainda podem alimentar pessoas. É uma resposta concreta, embora insuficiente diante do tamanho do problema.
Por isso, merece atenção a proposta de adesão à campanha #FazAXepa, do programa Brasil Sem Desperdício. A ideia é simples: discutir com restaurantes, empresas, feiras e mercados o destino dos alimentos fora do padrão comercial. O que hoje é considerado feio pode continuar sendo comida.
Fazer a xepa não é aceitar resto. É recusar o desperdício.
Talvez esteja na hora de rever o que chamamos de alimento “bom”. Porque, enquanto exigimos a fruta perfeita, há quem não tenha fruta alguma.
Anápolis e os municípios vizinhos produzem muito. Podem, portanto, fazer mais do que alimentar. Podem dar o exemplo de que produzir também é saber respeitar aquilo que se produz.
