
Setenta anos após sua publicação, Grande Sertão: Veredas, de João Guimarães Rosa, permanece extraordinariamente atual. Considerada por muitos a maior obra da literatura brasileira, comparável a clássicos como Dom Quixote, Os Miseráveis e Cem Anos de Solidão, ela parece falar mais do Brasil contemporâneo do que daquele de 1956.
À primeira vista, o romance narra histórias de jagunços, vinganças, guerras particulares e travessias pelo sertão mineiro e baiano, permeadas pelo amor entre Riobaldo e Diadorim. Mas o sertão de Rosa nunca foi apenas geográfico. Era um espaço moral, político e humano, onde as instituições falhavam e cada indivíduo precisava decidir entre o bem e o mal.
O Brasil retratado pelo autor é o das primeiras décadas do século XX, quando vastas regiões viviam à margem da presença efetiva do Estado. Nesse ambiente surgiam os jagunços, homens armados que protegiam interesses de fazendeiros e chefes políticos, substituindo muitas vezes a autoridade pública. Do outro lado, os soldados do governo frequentemente atuavam sob influência das oligarquias regionais, tornando incerta a fronteira entre justiça, poder e conveniência.
Essa ambiguidade continua atual. Ainda hoje, apesar da presença formal do Estado em todo o território nacional, persistem áreas marcadas pela violência organizada, pela corrupção e pela fragilidade institucional. Em muitos lugares, a autoridade pública continua sendo desafiada.
A frase mais célebre da obra, “O sertão é dentro da gente,” desloca o problema do território para a consciência humana. Riobaldo vive atormentado por dúvidas sobre Deus, o diabo, o destino e suas próprias escolhas. Rosa ensina que a realidade é complexa e que a sabedoria nasce mais das perguntas do que das certezas.
No fundo, o escritor falou menos sobre guerras do que sobre escolhas humanas. As batalhas mudaram de forma, mas continuam exigindo responsabilidade, coragem e compromisso com o bem comum. Enquanto homens e mulheres buscarem distinguir o justo do conveniente, continuaremos atravessando os mesmos sertões.
Por isso, Grande Sertão: Veredas permanece eterno. E esta é uma homenagem a João Guimarães Rosa, um dos maiores escritores brasileiros de todos os tempos.
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