Em 20 de abril de 1999, na cidade de Littleton, no Colorado-EUA, dois adolescentes entraram armados na escola de Columbine, matando treze pessoas e ferindo mais de vinte, antes de cometerem suicídio. Inicialmente planejavam um atentado a bomba, de dimensões ainda maiores, porém os explosivos não funcionaram como esperado, acabaram optando por tiros, escolhendo as vitimas principalmente entre minorias étnicas e religiosas.

Histórias de massacres escolares, desde então, ocasionalmente chocam o mundo e nos causam espanto, como se fossem filmes de terror. Sempre tivemos, no entanto, a sensação de que só aconteciam em outros países. A impressão de que esse tipo de fenômeno só acontecia em lugares distantes nos manteve, apesar de impactados, de certa forma seguros e alheios, com aquele ar de que “não é problema nosso”. Bem, isso mudou.
Em outubro de 2017, um adolescente de 14 anos sacou uma arma dentro da sua sala de aula, em Goiânia-GO, e matou dois colegas, ferindo pelo menos outros quatro. Pouco mais de um ano depois, em 13 de março de 2019, dois atiradores mataram seis pessoas, sendo cinco crianças, na escola estadual Professor Raul Brasil, em Suzano-SP. Menos de uma semana depois um jovem foi apreendido em Pontalina-GO, acusado de planejar ataque à escola em que estudava.
As notícias causaram horror e preocupação aos pais, professores, alunos e em toda a sociedade. Esse tipo de ataque nunca havia acontecido tão próximo de nós e, com massacres acontecendo na nossa vizinhança, somos obrigados a nos perguntar: O que leva alguém a entrar em uma escola e brutalmente matar crianças e adolescentes? Estamos nós, a salvo disso?
Uma onda de intensa preocupação tomou conta de todos, principalmente dos pais. Pequenos desentendimentos entre alunos, discussões, ou mesmo um adolescente menos sociável e mais calado passaram a ser motivos de temor. Alguns pais chegaram a impedir que seus filhos fossem à escola, temendo por sua integridade. Porém, na mesma velocidade com que o pavor surgiu, ele desapareceu diluído em outras preocupações cotidianas.
Deixar que tragédias como as ocorridas em Suzano e Goiânia sejam esquecidas e imaginar que esse tipo de evento não irá se repetir é uma postura comodista. Permanecer alheios nos manterá desatentos, até que outro grande massacre ocorra e novamente nos leve do torpor ao terror. Devemos refletir e discutir o fenômeno até que possamos entender as causas, motivos e características a fim de sermos capazes de prevenir ou reduzir as chances de que novos ataques ocorram.
A análise atenta de massacres escolares já ocorridos mundo afora nos fornece pistas importantes para a compreensão da gênese desses atentados. Algumas características são comuns à maioria deles. Geralmente são cometidos por alunos das próprias escolas, adolescentes do sexo masculino e com antecedentes de comportamento incomum. Em muitos casos há histórico de bullying, envolve minorias étnicas ou religiosas e é comum que os agressores terminem por cometer suicídio ainda na cena do crime.
Provavelmente a palavra chave de todo esse processo já tenha sido citada anteriormente quando dissemos “análise atenta”. Observe que os crimes são cometidos por alunos, contra alunos, obviamente devido a conflitos que nasceram ali, no ambiente escolar. Nenhum conflito nasce grande o suficiente para gerar um atentado. Nasce pequeno, tem enredo, cresce e se não trabalhado corretamente, cria tensões que aumentam até níveis insuportáveis. Durante todo esse processo onde estava a atenção dos professores, coordenadores, diretores e pais?
Estamos falando de adolescentes que até um dia antes de cometerem um massacre estavam na sala de aula, no pátio, lanchando, conversando, convivendo, praticando educação física, e ruminando internamente um ódio capaz de leva-lo a matar e logo após se matar. Seria impossível detectar, entre os alunos, um jovem tomado de tamanho descontrole emocional? Será que em casa, no relacionamento com os pais e irmãos não houve qualquer sinal de alarme?
Trabalhar com adolescentes pressupõe entender que essa é uma fase cheia de conflitos. Um adolescente já não é criança e ainda não é adulto, não é mais quem foi e ainda não sabe quem será. É, portanto, um período que exige extrema atenção de todos os envolvidos. Um diretor ou coordenador deve andar pelos corredores do colégio, cumprimentando seus alunos e observando suas reações. Professores são capazes de notar mudanças de conduta em sala de aula. Os pais devem dizer “bom dia, está tudo bem?” aos seus filhos e aguardar a resposta de forma atenta e genuína.
Cabe, nesse momento da discussão, dizer que dar atenção não significa fazer as vontades, dar presentes, comprar o celular de último tipo. Dar atenção muitas vezes é fazer justamente o contrário. Fazer o que o adolescente precisa nem sempre é fazer o que ele quer, mas para isso é necessário estar atento e ligado afetivamente a ele.
Observamos com o correr dos anos mudanças na nossa forma de agir e nos relacionar. Assistimos ao nascimento de tecnologias, computadores, internet, tablets, smartfones e por fim as redes sociais, cuja intenção inicial seria aproximar as pessoas. O resultado, no entanto, é que estamos nos afastando cada vez mais, trocando menos olhares, toques, gestos e afeto.
Não se trata de um apelo “retrô” e utópico para que se abandone a tecnologia, ou que se proíba aos filhos o uso dos celulares. Mas um alerta de que a perda de vínculos de afeto, atenção e carinho podem ter consequências nefastas. Os lares e as escolas devem se manter como ilhas de aconchego, onde as pessoas se relacionam, se desentendem para logo depois se entenderem, como seres humanos em evolução que somos.
Apesar do crescimento das cidades, da difusão massificada das tecnologias de comunicação, da evolução implacável dos mercados, somos seres humanos e nossas características essenciais são imutáveis. Todos necessitamos de mães, pais, professores, amigos, afeto e segurança.




