
Todos os dias tenho que responder a uma pergunta: tem se vendido carro novo? Minha resposta, como não poderia deixar de ser, é: sim, e muito.
Quem anda pelas ruas das cidades, pelos shoppings e pelos locais onde a galera costuma se encontrar pode ter a impressão de que o movimento diminuiu. Há menos pessoas circulando, comprando ou simplesmente se divertindo. É uma percepção que não pode ser ignorada.
O problema é que o comportamento do consumidor não depende apenas da vontade de comprar. Ele é diretamente influenciado pelo ambiente econômico, pelo custo do dinheiro, pelos preços, pelos impostos, pelo câmbio e pelas regras que, de uma hora para outra, podem alterar a maneira como determinados produtos são utilizados.
E a política, gostemos ou não, também interfere no setor automotivo.
Um bom exemplo está nos combustíveis. Em agosto deste ano, a gasolina comum passou temporariamente de E30 para E32, ou seja, 32% de etanol anidro na composição da gasolina C. A medida foi estabelecida pelo Conselho Nacional de Política Energética por 180 dias, com possibilidade de prorrogação. No diesel, a mistura obrigatória de biodiesel chegou a 15%, o chamado B15.

É importante fazer uma ressalva. Não estou dizendo que essas mudanças, por si só, irão provocar uma quebradeira de motores ou transformar todos os veículos antigos em problemas sobre quatro rodas. Os estudos técnicos realizados para avaliar o E30, inclusive, apontaram sua viabilidade para a maior parte da frota brasileira.
Mas mudanças dessa natureza inevitavelmente despertam dúvidas no consumidor. Afinal, estamos falando de uma frota enorme, formada por veículos de diferentes idades, tecnologias, sistemas de alimentação e projetos.
E quando existe dúvida, existe também mudança de comportamento.
O mesmo raciocínio vale para o transporte pesado. Caminhões são fundamentais para movimentar as riquezas produzidas no país e dependem diretamente da qualidade, disponibilidade e características do combustível. O aumento do biodiesel exige acompanhamento permanente da qualidade do produto, armazenamento, manutenção e adequação dos veículos às especificações estabelecidas.
Não é apenas o combustível, entretanto, que está mexendo com o mercado.
Temos alterações nas alíquotas de importação, mudanças regulatórias, custos trabalhistas, uma taxa Selic que permaneceu em patamar elevado (embora tenha começado a apresentar redução) e, consequentemente, juros que continuam pesando na decisão de quem precisa financiar um veículo.
Um carro pode até ter preço competitivo na vitrine. Mas, quando o consumidor coloca entrada, prazo, taxa de juros e valor da parcela na ponta do lápis, a história pode ser completamente diferente.
Vamos olhar para Anápolis. Na parcial de emplacamentos de setembro de 2026, até o dia 28, entre os 20 modelos mais emplacados na cidade aparecem sete marcas chinesas que oferecem veículos híbridos ou elétricos, além de modelos a combustão. São sete marcas em um grupo de 20 posições, o equivalente a 35%.
É claro que não podemos afirmar que todos esses compradores escolheram um híbrido ou um elétrico exclusivamente por causa das mudanças nas regras dos combustíveis. Seria uma conclusão impossível de sustentar apenas pelos números de emplacamentos.
Mas podemos observar um movimento.
O consumidor está comparando mais. Está colocando na ponta do lápis consumo, manutenção, garantia, tecnologia, equipamentos, preço e, principalmente, o custo para permanecer com o veículo durante alguns anos.
A primeira onda de veículos chineses já mudou o mercado brasileiro. Agora, a segunda onda está chegando com ainda mais força, trazendo produtos mais sofisticados, maior variedade de modelos, novas tecnologias e, em muitos casos, preços que obrigam as marcas tradicionais a rever suas estratégias.
O consumidor não está parado. Ele está pesquisando, comparando e mudando de direção quando encontra uma alternativa que considera mais interessante para o seu bolso. No fim das contas, é ele quem paga a conta.
E quando o cenário fica complicado, o consumidor faz aquilo que sempre fez: procura uma saída.
Dá seus pulos para se salvar.
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