Talvez eu faça parte da exceção de pais que não conseguem celebrar plenamente quando um filho escolhe a Medicina. Não por falta de orgulho, mas por excesso de preocupação.
Por Vander Lúcio Barbosa
Ainda como acadêmico, já percebo com clareza a mudança de comportamento do meu filho nos últimos dias de faculdade. Antes mesmo do diploma, ele já vive a rotina que muitos médicos carregam por décadas: jornadas longas, pressão emocional, responsabilidade extrema e pouco espaço para ser, simplesmente, jovem.
Rodando por hospitais como estagiário, cumprindo horários “médicos” e se preparando para enfrentar a residência, ele e tantos outros passam a experimentar, cedo demais, o peso da profissão.
A universidade exige. O hospital exige. A própria vocação exige. O resultado é um cotidiano de dupla jornada entre provas, plantões, estudos intermináveis e a cobrança silenciosa por excelência.
No meio disso, ficam pelo caminho coisas que não voltam: namoros interrompidos, eventos familiares recusados, noites de sono comprometidas, amizades enfraquecidas. O cansaço deixa de ser apenas físico. Torna-se emocional. E, muitas vezes, invisível.
Pesquisas recentes mostram que quase metade dos médicos brasileiros apresenta algum grau de sofrimento mental, como ansiedade, depressão ou burnout. O que pouco se discute é que esse adoecimento começa antes do jaleco definitivo. Ele nasce nas salas de aula, nos corredores hospitalares, nos plantões de estudante, na cultura que romantiza o excesso de trabalho e transforma exaustão em virtude.
Formamos profissionais para cuidar da vida, mas esquecemos de cuidar de quem aprende a salvá-la. Existe uma lógica perigosa de que o médico precisa ser forte o tempo todo, resistente ao medo, à dor e ao limite humano. Só que médicos não são máquinas. São pessoas que também sentem, adoecem e precisam de acolhimento.
Este não é um texto contra a Medicina. Ao contrário: é um texto a favor dela. A favor dos jovens que escolhem servir à saúde da sociedade e, muitas vezes, pagam com a própria saúde emocional. É um convite para que universidades, hospitais, famílias e a própria sociedade enxerguem esses estudantes não apenas como futuros profissionais, mas como seres humanos em formação.
Cuidar da saúde começa por cuidar de quem escolheu cuidar. E isso não é fraqueza. É responsabilidade coletiva.
Junte-se aos grupos de WhatsApp do Portal CONTEXTO e fique por dentro das principais notícias de Anápolis e região. Clique aqui.




