
E cá estou eu, de volta aos eternos sertões brasileiros, agora apreciando a obra fantástica de Euclides da Cunha – “OS SERTÕES (1902) – na tentativa de contemporizar com o persistente subdesenvolvimento do Brasil. Para tanto, contemplo os detalhes em que a obra-prima de Euclides da Cunha não foi apenas a crônica de um conflito militar (a Guerra de Canudos), mas um dos primeiros e mais profundos estudos das fraturas estruturais do nosso país.
Sim, quando olhamos para as razões pelas quais o Brasil ainda patina em gargalos de desenvolvimento econômico com crescimento pífio, o livro se mostra assustadoramente atual quando analisado nos seus três pilares principais: A Terra, O homem, A luta. Euclides revela a existência de dois Brasis completamente desconectados: o do litoral (moderno, cosmopolita, republicano, que olhava para a Europa) e o Brasil do interior/sertão (esquecido, arcaico, sem quaisquer perspectivas de futuro).
Um célebre frase de Euclides, “O sertanejo é, antes de tudo, um forte, “resume a resiliência do brasileiro do interior/sertão, que, privado das condições estruturais para prosperar, ainda assim resiste, produz e sobrevive, prova cabal de que o baixo desenvolvimento do Brasil não ocorre por incapacidade de seu povo, mas porque as estruturas institucionais descritas em 1902, por Euclides, ainda permanecem e cobram e cobrarão, sempre, o seu preço.
Sim, a incapacidade de nossas elites de integrar o território de forma justa, gerando bolsões de riquezas, coexistindo com regiões inteiras que carecem do básico: saneamento, infraestrutura, boas escolas, logística e conectividade, nunca deixou de existir. Assim, o país continua sendo governando sem entender as demandas do sertão profundo. E Euclides percebeu a cultura de um modelo de civilização europeizado a um povo que sequer tinha o que comer. Desta forma, para o governo, Canudos não era um problema social de miséria e abandono, mas sim uma ameaça que precisava ser erradicada pela força. E foi o que aconteceu. Uma barbárie!
Também verdade que o Brasil, ontem e hoje, sofre com o vício de formular políticas públicas de cima para baixo. A atual reforma tributária em implantação, sem considerar as desigualdades regionais, os Estados que lutam para se industrializar há mais de 40 anos, é uma prova evidente. O resultado será mais atraso no desenvolvimento econômico dos sertões, como mérito das políticas econômicas que ignoram o Brasil real, resultando em baixa produtividade, burocracia sufocante, impostos altos, desindustrialização e programas sociais que combatem os sintomas, mas não as causas da pobreza.
Por fim, a conclusão trágica de “Os Sertões” é que o Estado brasileiro preferiu esmagar a comunidade de Canudos a integrá-la socioeconomicamente. Na atualidade, onde o Estado falha em levar educação de qualidade, infraestrutura urbana, saúde e emprego, ele costuma aparecer prioritariamente por meio do braço armado e da repressão violenta, ou, no máximo, levar discursos eufemistas e populistas. Sendo certo que a mentalidade de que comunidades vulneráveis são territórios a serem contidos em vez de populações a serem desenvolvidas é uma herança direta da mentalidade de Canudos. Valha-nos Deus!
Bravo “Euclides da Cunha” (20/01/1866 – 15/08/1909) pelo Raiox-X de uma nação que optou por se eternizar no atraso, de 1902 a 2026, por oras! Porém, “Canudos não se rendeu”!
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