Urologista Luiz Cláudio Resende Gonçalves aponta redução da prevenção como uma das causas e reforça importância do diagnóstico precoce
Goiás registrou 12.012 notificações de sífilis adquirida em 2025, maior número da série histórica iniciada em 2010, segundo dados da Secretaria de Estado da Saúde de Goiás (SES). O resultado representa uma média de quase 33 registros por dia e crescimento de 19,3% em relação a 2024, quando foram contabilizadas 10.070 ocorrências.
Para o urologista Luiz Cláudio Resende Gonçalves, diretor clínico do Centro Hospitalar Anima, em Anápolis, o avanço pode estar relacionado, entre outros fatores, a uma redução da atenção dada à prevenção das infecções sexualmente transmissíveis (ISTs).
“O que está por trás desse aumento é a diminuição da prevenção para as infecções sexualmente transmissíveis. Com a eficácia do tratamento do HIV, houve uma certa despreocupação generalizada com as ISTs, causando um recrudescimento dessas doenças”, avalia o especialista.
HOMENS NA FRENTE
Os homens representam a maioria das notificações. Em 2025, foram 7.485 registros entre pacientes do sexo masculino, o equivalente a 62,3% do total. Entre as mulheres, foram 4.482 ocorrências. Em outros 45 registros, o sexo do paciente não foi informado.
Segundo Luiz Cláudio, entretanto, a diferença entre homens e mulheres precisa ser analisada com cautela. Ele explica que características da manifestação inicial da doença podem facilitar sua identificação nos homens. “Nos homens, as lesões da sífilis primária são de mais fácil detecção. Pode estar havendo subdiagnóstico nas mulheres. Outro fator seria a possibilidade de maior atividade sexual no sexo masculino”, afirma.
A faixa etária de 20 a 29 anos concentra o maior número de notificações. Foram 4.544 registros, correspondentes a 37,8% do total. Na sequência aparecem pessoas de 30 a 39 anos, com 2.953 notificações, e de 40 a 49 anos, com 1.725.
JUVENTUDE EXPOSTA
Na avaliação do urologista, parte dos jovens pode ter desenvolvido uma percepção equivocada sobre os riscos das infecções sexualmente transmissíveis em razão dos avanços no tratamento do HIV. “Essa faixa etária não viveu o terror das décadas anteriores relacionado à Aids. Isso deu a eles uma sensação de falsa imunidade e eles não estão dando a atenção devida à prevenção das ISTs”, afirma.
O especialista também observa que, estatisticamente, a faixa de 20 a 29 anos apresenta maior atividade sexual e, em muitos casos, múltiplos parceiros, circunstância que pode ampliar a exposição quando não há proteção adequada.
A sífilis é uma infecção sexualmente transmissível causada pela bactéria Treponema pallidum. A principal forma de transmissão ocorre por contato sexual com uma pessoa infectada, especialmente quando não há utilização de preservativo.
RISCO À SAÚDE
Embora tenha tratamento e cura, a doença pode provocar consequências graves quando não diagnosticada e tratada adequadamente. A infecção pode evoluir para formas tardias e atingir diferentes órgãos, inclusive os sistemas cardiovascular e neurológico. “A sífilis tardia ou terciária pode comprometer o sistema cardiovascular e neurológico, com complicações graves, como aneurismas e alterações degenerativas neurológicas”, alerta Luiz Cláudio.
O número de notificações também precisa ser interpretado com cautela. O registro feito pelos sistemas de vigilância epidemiológica corresponde aos casos identificados pelos serviços de saúde e não necessariamente significa que todas as notificações representem infecções adquiridas naquele ano.
Em 2020, Goiás havia registrado 4.445 notificações. O total de 2025, portanto, representa aumento de aproximadamente 170% em relação àquele ano.
PREVENÇÃO
Para o especialista, o uso do preservativo continua sendo a mais indicada medida para reduzir a transmissão da sífilis e de outras ISTs. “A principal forma de prevenção é o uso de preservativos. Não há forma mais eficiente para isso. Fazendo detecção e tratamento precoces, você não transmite e, com isso, as cadeias de transmissão também são interrompidas”, orienta.
Além da prevenção, a testagem tem papel importante no controle da doença, principalmente porque nem sempre a infecção apresenta sintomas facilmente reconhecidos. Em Anápolis, a rede municipal oferece testes rápidos para sífilis, HIV e hepatites B e C.
Os dados da SES também já apresentam registros de sífilis em 2026. Como o ano ainda está em andamento, porém, os números não podem ser comparados diretamente com os totais anuais de 2025.
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