Em tempos de eleições, talvez valesse a pena fazer uma pergunta incômoda: que tipo de homem ou mulher estamos escolhendo para cuidar da coisa pública? A Bíblia, curiosamente, oferece um personagem que poderia provocar muita gente: Daniel.
Vander Lúcio Barbosa
Daniel não era político como entendemos hoje. Era um servidor de alto escalão, integrante da administração de um império. E, pelo que registra o livro que leva seu nome, fazia aquilo que parece cada vez mais raro: sabia trabalhar, sabia administrar e, sobretudo, não se deixava corromper pelo poder.
Dario colocou 120 administradores para governar o reino e três supervisores sobre eles. Daniel era um dos três. O texto diz que ele se destacou por suas qualidades e que o rei pensava em colocá-lo à frente de todo o império. Até aí, nada de extraordinário. O detalhe vem depois.
Os adversários de Daniel resolveram vasculhar sua vida funcional. Procuraram uma brecha, um erro, uma irregularidade, qualquer coisa que pudesse servir de munição contra ele. Não encontraram. A Bíblia é explícita: Daniel era fiel, não era desonesto nem negligente.
Imagine isso hoje.
Um servidor público cuja ficha administrativa pudesse ser examinada por adversários políticos sem que aparecesse uma negociata, um favorecimento, uma propina, uma incompetência deliberada ou um descuido com o dinheiro público. Um homem que não precisasse explicar o inexplicável.
Daniel reunia qualidades que deveriam ser obrigatórias — e não extraordinárias — para quem ocupa funções públicas: competência, responsabilidade, lealdade, honestidade, disciplina, capacidade administrativa e coerência. E havia mais: ele não abandonava seus princípios quando eles passaram a ameaçar sua própria posição.
E aqui está a provocação. Será que estamos procurando “Daniels” ou apenas candidatos capazes de ganhar eleições?
Porque ganhar eleição e saber administrar são coisas diferentes. Fazer discurso é uma coisa; administrar é outra. Prometer é relativamente fácil. Entregar é muito mais difícil. E ocupar uma cadeira de poder sem permitir que ela ocupe a consciência talvez seja a maior prova de caráter.
Daniel atravessou governos e continuou servindo. Não precisou mudar de caráter para permanecer no poder. Prosperou durante os reinados de Dario e Ciro.
Talvez seja disso que a política brasileira esteja precisando: menos gente apaixonada pelo poder e mais gente preparada para servi-lo sem se servir dele.
Não precisamos de Daniel na cova dos leões.
Precisamos de Daniels antes que os leões apareçam.
