As corridas promovidas pelo Automóvel Clube de Anápolis colocaram a cidade entre os pioneiros do automobilismo goiano e alimentaram um sonho que nunca saiu do papel: a construção de um autódromo próprio
Muito antes de Goiânia possuir um autódromo internacional e décadas antes de o automobilismo se popularizar no Centro-Oeste, Anápolis já vivia a velocidade de forma intensa. Em uma época em que as ruas comportavam grandes eventos, avenidas transformavam-se em circuitos improvisados que atraíam pilotos, mecânicos e espectadores.
Entre as décadas de 1960 e 1980, o município viveu um período marcante de sua história. Sob a liderança do Automóvel Clube de Anápolis, competições de grande porte projetaram a cidade além das fronteiras estaduais. Empresários, comerciantes e apaixonados por carros compartilhavam o objetivo comum de colocar Anápolis de vez no mapa da velocidade.
Poucos acompanharam essa trajetória tão de perto quanto Wilmar Jardim de Carvalho, que esteve sempre presente nos acontecimentos ao lado do pai, Waldir, um dos fundadores do ACA. Como integrantes da diretoria do clube, participaram, com outros associados, ativamente da organização de provas e do sonho de um autódromo permanente. “Era uma época diferente, de entusiasmo e disposição. O automobilismo crescia no país e nós acreditávamos no potencial de Anápolis como referência regional”, recorda Wilmar.

ANÁPOLIS EM EXPANSÃO
A cidade atravessava um forte desenvolvimento econômico impulsionada pelo comércio, pela posição estratégica entre Goiânia e Brasília e pelo avanço da atividade industrial. O ambiente favorecia iniciativas ousadas. Mais que uma entidade esportiva, o Automóvel Clube tornou-se o ponto de encontro de entusiastas que viam nas corridas uma chance de divulgar o município.
Com apoio coletivo, o que começou como reunião de apaixonados transformou-se em um capítulo memorável da história esportiva anapolina. As corridas de rua mobilizavam toda a população: vias próximas à Praça Dom Emanuel eram interditadas e moradores ocupavam calçadas e sacadas para assistir de perto. Foi nesse cenário vibrante que nasceram as tradicionais 200 Milhas de Anápolis, um dos marcos do automobilismo goiano.



AS 200 MILHAS
O auge do automobilismo anapolino ocorreu com as tradicionais 200 Milhas de Anápolis, competição que se transformou em referência para pilotos e admiradores da velocidade em Goiás. Promovida pelo Automóvel Clube de Anápolis, a prova reunia competidores de várias regiões e atraía grande público. Durante dias, o evento dominava as conversas na cidade e criava expectativa em torno da largada.
Mais do que uma corrida, as 200 Milhas movimentavam a economia local. Hotéis recebiam visitantes, restaurantes ampliavam o atendimento e o comércio era beneficiado pela presença de pilotos, equipes e espectadores vindos de diferentes localidades.
As disputas aconteciam em circuitos montados nas próprias ruas da cidade, exigindo uma complexa operação de logística e segurança. Vias eram interditadas e barreiras instaladas em uma época de recursos limitados.
Wilmar Jardim lembra que cada edição demandava meses de preparação. “Precisávamos articular autoridades, organizar os pilotos, buscar patrocinadores e cuidar de toda a segurança. Era uma operação muito grande para a nossa realidade”, recorda. O evento cresceu e consolidou Anápolis no cenário automobilístico regional.”
O LENDÁRIO JEGÃO
Se as corridas tinham organizadores dedicados, também possuíam seus ídolos. Entre eles, nenhum alcançou tanta popularidade quanto Jefferson Cardoso, o “Jegão”.
Carismático e dono de uma pilotagem arrojada, tornou-se uma das figuras mais admiradas do automobilismo anapolino. Seu nome passou a ser presença constante nas principais competições da cidade, ajudando a atrair público e ampliar o interesse pelas corridas.
Para muitos moradores, os eventos representavam a oportunidade de acompanhar de perto pilotos que se transformavam em verdadeiras celebridades locais. Embora ainda distante da profissionalização atual, o esporte já despertava paixões, rivalidades e forte identificação popular.
Mais do que um competidor, Jefferson Cardoso simbolizava uma geração movida pela coragem, pela paixão pela velocidade e pelo desafio de correr em tempos de recursos limitados
O PREÇO DA VELOCIDADE
O crescimento das corridas trouxe visibilidade para Anápolis, mas também evidenciou os sérios riscos do automobilismo em circuitos urbanos. À medida que os veículos evoluíam e atingiam velocidades mais elevadas, aumentavam muito as preocupações com a segurança de pilotos e espectadores.
Diferentemente dos autódromos, as ruas apresentavam severas limitações naturais como postes, calçadas, edificações e praticamente nenhuma área de escape. Mesmo com os cuidados dos organizadores, o perigo iminente fazia parte de toda a competição.
Em 1971, ainda sem uma estrutura adequada, foi realizada outra edição das tradicionais 200 Milhas de Anápolis. A tentativa de manter o evento nos mesmos moldes terminou de forma bastante trágica. Acidentes na pista culminaram na trágica morte de uma criança e provocaram forte comoção na cidade.
Os acontecimentos serviram de alerta para autoridades e dirigentes esportivos. Em sintonia com uma tendência nacional, as corridas de rua passaram a ser suspensas definitivamente em Anápolis. Tornava-se evidente que o futuro do automobilismo local dependeria da construção de uma estrutura permanente e segura. Foi então que surgiu um ambicioso projeto que alimentaria o grande sonho de velocidade.
SONHO INTERROMPIDO
A experiência com corridas de rua levou o Automóvel Clube de Anápolis a sonhar mais alto: construir um autódromo permanente para tornar a cidade uma referência regional. O plano era viável, pois o esporte crescia no país e o município reunia localização estratégica, forte tradição e engajamento empresarial.
As discussões avançaram rápido e o tema ganhou força entre líderes locais. O projeto de fato saiu do papel quando uma grande área na BR-414 foi escolhida, recebendo máquinas pesadas para iniciar a terraplanagem do traçado do circuito.
Para os entusiastas, o complexo atrairia novos investimentos, turismo e fortaleceria muito a imagem de Anápolis. Wilmar Jardim acompanhou as articulações e recorda o otimismo coletivo. “Havia imensa confiança de que o projeto seria realidade. A cidade crescia e acreditávamos que Anápolis comportaria perfeitamente uma estrutura desse porte”, afirma.
Apesar da forte mobilização, o ambicioso empreendimento esbarrou em sérias dificuldades financeiras, falta de recursos complementares, mudanças de prioridades políticas e graves entraves administrativos. Além disso, o massivo direcionamento de verbas públicas para a praça esportiva de Goiânia acabou por esvaziar de vez a iniciativa local.
Com o tempo, a proposta perdeu força até ser abandonada. O sonho do autódromo permaneceu vivo apenas na memória daqueles que acreditaram no potencial de transformar Anápolis em um dos principais polos de velocidade de todo o Centro-Oeste brasileiro.
MARCAS DO TEMPO
Embora o autódromo nunca tenha sido construído, a história do Automóvel Clube de Anápolis deixou marcas duradouras. As corridas popularizaram o esporte em Goiás, revelaram grandes pilotos e mobilizaram a sociedade, colocando o município em evidência regional.
Mais do que isso, preservaram uma memória que segue muito viva. Meio século depois, os relatos sobre as icônicas 200 Milhas e os circuitos improvisados ainda despertam profunda admiração.
São lembranças de uma época em que a pura paixão foi suficiente para transformar ruas comuns em pistas e fazer da cidade protagonista da velocidade. O autódromo permaneceu apenas no papel, mas Anápolis garantiu um lugar eterno na história do automobilismo goiano.
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