O relatório de 218 páginas da PF sobre o caso Master foi tema do comentário do advogado Arinilson Mariano, conselheiro da OAB-GO, na Rádio Manchester 93.3 FM, em parceria exclusiva com o Portal Contexto
Após ler mensagens, contratos e registros extraídos do celular de Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, Mariano disse ter terminado com “uma mistura de preocupação, uma certa indignação e até nojo”. Ele propôs um exercício ao ouvinte: esquecer posições sobre Lula, Bolsonaro ou Moraes. “Se os personagens fossem outros, você ia achar isso tudo normal?”, questionou.
O caso envolve suspeita de fraude de R$ 12 bilhões atribuída ao banco de Vorcaro, que foi preso. Segundo a PF, ele circulava com desenvoltura entre as autoridades mais poderosas da República.
Encontros noturnos
O ponto mais grave, para Mariano, foi a relação com o ministro do STF Alexandre de Moraes. A PF encontrou registros de vários encontros fora da agenda oficial. “Não são encontros protocolares, eventos públicos. Vorcaro fala que está com Moraes à noite, na sua casa, num feriado”, relatou. Um exemplo seria de março de 2025, iniciado por volta das 20h e estendido após meia-noite, com outros em abril, maio e agosto.
No mesmo período, o escritório da esposa do ministro mantinha contrato milionário com o Banco Master. “R$ 3 milhões por mês, líquidos. A nota fiscal é de quase R$ 3,7 milhões por mês”, afirmou.
Contrato milionário
Outro detalhe foi a análise dos metadados da minuta. Segundo a PF, a última modificação foi feita por usuário denominado “Ministro Alexandre de Moraes”. “Pode haver explicação técnica? Evidentemente que pode. Mas é necessário explicar”, disse. “Se ficar demonstrado que o próprio ministro participou da elaboração ou negociação, surge uma questão que nem depende de provar corrupção. É a incompatibilidade entre advocacia e magistratura”.
As mensagens mais sensíveis citam autoridades. Vorcaro teria perguntado a Moraes: “Não conseguimos reverter isso com o Paulo ou o Andrei?”, referindo-se ao PGR Paulo Gonet e ao diretor-geral da PF Andrei Rodrigues. Em outra, disse que se Andrei atrasasse uma medida por causa do feriado, “o banco não quebra”. Dois dias antes da prisão, perguntou: “Acha que segunda já tenho que estar fora?”.
“Não vou acusar ninguém de crime não provado. Mas por que Vorcaro fazia essas perguntas justamente a um ministro do Supremo?”, questionou Arinilson.
Coragem institucional

Para Mariano, a discussão não é apenas criminal, mas institucional. “Um juiz precisa ser imparcial e parecer imparcial”, disse. Para ele, a situação seria “institucionalmente insustentável”. Lembrou que editoriais da Folha e do Estadão defenderam a saída de Moraes do STF. “Não estou antecipando condenação criminal, falo de responsabilidade institucional. O Supremo é maior que Alexandre de Moraes”, declarou.
Mariano elogiou o ministro André Mendonça, que determinou aprofundar a análise. “É muito fácil ser rigoroso quando a investigação alcança um adversário. Difícil é não recuar quando alcança um colega”, concluiu. Segundo ele, diante da dúvida, Mendonça escolheu investigar, e as demais instituições precisarão escolher entre proteger pessoas ou proteger a credibilidade.
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