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El Niño: fenômeno climático influencia chuvas, temperaturas e produção agrícola em Goiás

de Jornal Contexto
20 de junho de 2026
em UniEVANGÉLICA
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Imagem: Ilustrativa

Imagem: Ilustrativa

Pesquisados da UniEVANGÉLICA explica o que é e como o fenômeno pode impactar o país em diferentes setores e ambientes produtivos

Pesquisador Eduardo Argolo explica fenômeno climático

O anúncio recente da consolidação de um novo episódio de El Niño reacendeu a atenção de meteorologistas, pesquisadores e produtores rurais em todo o mundo. Caracterizado pelo aquecimento anormal das águas do Oceano Pacífico Equatorial, o fenômeno tem potencial para alterar padrões climáticos em diferentes continentes, influenciando o regime de chuvas, as temperaturas e até mesmo a ocorrência de eventos extremos.

Segundo o professor Eduardo Dourado Argolo, doutor em Engenharia pela Universidade de Brasília (UnB), pesquisador da Universidade Evangélica de Goiás (UniEVANGÉLICA) e especialista em Sensoriamento Remoto e Geoprocessamento, o Pacífico Equatorial desempenha um papel fundamental no equilíbrio climático global.

“O Pacífico Equatorial funciona como uma grande engrenagem do clima global. Quando essa região aquece mais do que o normal, os ventos, as nuvens e as áreas de chuva mudam de posição. Esse efeito se espalha para outros continentes e chega ao Brasil em forma de alterações na chuva, na temperatura e no risco de extremos”, explica.

De acordo com o pesquisador, a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA) confirmou, em junho, o estabelecimento das condições de El Niño. A intensidade do fenômeno é medida pela anomalia da temperatura da superfície do mar no Pacífico Equatorial. Quando essa anomalia ultrapassa 0,5°C, o fenômeno já é caracterizado. Acima de 1,5°C, é considerado forte e, acima de 2°C, muito forte.

“Neste ano, algumas áreas do Pacífico já apresentam anomalias próximas de 2,5°C. Embora a principal referência para a classificação global seja a região Niño 3.4, esses valores indicam um cenário que merece atenção”, destaca.

Impactos diferentes

Os efeitos do El Niño não ocorrem de maneira uniforme no Brasil. Enquanto algumas regiões registram aumento significativo das chuvas, outras enfrentam períodos de estiagem e calor mais intenso.

“O padrão mais conhecido é chuva acima da média no Sul, com maior risco de temporais e enchentes. No Norte e em parte do Nordeste, costuma haver redução das chuvas. Já no Centro-Oeste, incluindo Goiás, o efeito mais importante geralmente é a irregularidade da chuva, com calor mais forte e possibilidade de atraso na consolidação da estação chuvosa”, afirma o professor.

Essa alteração na distribuição das chuvas também favorece a ocorrência de eventos extremos. No Sul, aumentam os riscos de enchentes, alagamentos e vendavais. Em Goiás, por outro lado, a principal preocupação está relacionada aos períodos prolongados de seca, baixa umidade relativa do ar e maior propensão a incêndios florestais.

Goiás em alerta

Para Goiás, os impactos do El Niño costumam ser sentidos principalmente pela irregularidade das precipitações, sobretudo durante a transição entre o inverno e a primavera. “Goiás e o Centro-Oeste costumam sentir o El Niño mais pela irregularidade das chuvas do que por ausência total de precipitação. Pode até chover em alguns momentos, mas a estação chuvosa demora mais para engrenar. Neste ano, a maior preocupação está no fim do inverno e na primavera, período em que o estado já costuma ficar mais vulnerável a calor, baixa umidade e incêndios”, explica.

Essa condição também afeta diretamente os recursos hídricos. Segundo Argolo, a preocupação vai além do abastecimento imediato. “Se a chuva vier tarde ou muito mal distribuída, a recarga de rios, reservatórios e nascentes fica prejudicada. Isso é especialmente importante em Goiás, porque o Cerrado é um dos grandes berços das águas do Brasil. Muitas nascentes e importantes bacias hidrográficas têm origem no bioma”, ressalta.

Agricultura e pecuária: vulnerabilidade

O setor agropecuário está entre os mais vulneráveis aos efeitos do fenômeno climático. O atraso ou a irregularidade das chuvas pode comprometer o planejamento das safras e aumentar os custos de produção.

“Se a chuva atrasa ou falha no começo da temporada, o plantio fica mais arriscado e o produtor pode ter dificuldade para acertar a janela ideal. Na pecuária, a seca reduz a qualidade das pastagens, aumenta o estresse térmico do rebanho e pressiona os custos com suplementação alimentar e água”, observa.

Além do agronegócio, outros setores também podem ser afetados, como geração de energia, abastecimento hídrico, transporte, saúde pública e defesa civil.

Consequências para a saúde da população

Os impactos do El Niño não se restringem ao meio ambiente e à economia. A saúde da população também pode ser afetada, especialmente durante períodos de estiagem prolongada e aumento das queimadas.

“O problema não é apenas o calor. Com mais incêndios, cresce a presença de fumaça e material particulado no ar, o que piora a qualidade do ar e agrava casos de asma, bronquite, rinite e irritações nos olhos e na garganta”, alerta o pesquisador.

Ele lembra que, em 2024, mesmo sob um episódio menos intenso do fenômeno, o país registrou uma temporada severa de incêndios florestais, com reflexos na qualidade do ar em diversas regiões.

Embora os especialistas consigam identificar tendências climáticas associadas ao El Niño, prever com exatidão todos os seus impactos ainda é um desafio.

Dá para prever tendências, mas não cravar tudo com meses de antecedência. O El Niño aumenta a chance de determinados padrões, mas o que vai acontecer em cada estado também depende de outros fatores, como bloqueios atmosféricos, frentes frias, umidade da Amazônia e temperatura do Atlântico, explica Argolo.

Diante desse cenário, o professor destaca a importância do monitoramento contínuo e da adoção de medidas preventivas por parte de governos, produtores rurais e da população. “Governos precisam reforçar sistemas de monitoramento, alertas, gestão da água e combate a incêndios. Os produtores devem acompanhar plataformas de previsão do tempo e monitoramento climático para tomar decisões mais seguras. Já a população pode contribuir evitando o uso do fogo, economizando água e redobrando os cuidados com a saúde durante períodos de fumaça e ar seco”, conclui.

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