Três milhões e meio de brasileiros já autorizaram o saque do FGTS para abater dívidas dentro do programa Desenrola 2.0. Segundo levantamento do Ministério do Trabalho divulgado nesta semana, as operações envolvem quase R$ 4 bilhões.
Por Vander Lúcio Barbosa
Pelas regras, cada pessoa pode utilizar até 20% do saldo do Fundo de Garantia, limitado a R$ 1 mil, prevalecendo o valor maior. A expectativa é de que até R$ 8 bilhões sejam disponibilizados.
O mais curioso é que a população parece pouco preocupada com a própria situação financeira. Dados oficiais mostram que 80,4% das famílias brasileiras possuem algum tipo de conta em atraso. Isso não significa que todas se tornarão inadimplentes, mas, diante do cenário econômico atual, poucas conseguirão quitar seus compromissos sem dificuldades.
Mas, sobre a despreocupação dos brasileiros ante a crise, basta observar os dias de Copa do Mundo. Nem é preciso que a Seleção Brasileira esteja em campo. Jogos entre seleções pouco conhecidas já servem de motivo para interromper a rotina, antecipar a saída do trabalho ou reunir amigos em bares e confraternizações.
Enquanto isso, apenas R$ 10,3 milhões foram efetivamente reservados no Desenrola, resultado de cerca de 17 mil operações realizadas junto aos bancos participantes, com valor médio de R$ 604,73.
A discussão nacional gira em torno de Neymar, das transferências de jogadores e das aventuras amorosas de celebridades do futebol. Pouco se fala, entretanto, sobre o custo da vida, o endividamento crescente das famílias ou as dificuldades enfrentadas pela população. Sabe-se apenas que a Copa de 2026 é a mais cara da história. Durante pouco mais de um mês, bilhões serão movimentados em torno do espetáculo. Depois, cada um retorna à sua realidade.
Em países onde faltam prioridades bem definidas, vive-se de eventos, como no Brasil. Carnaval, futebol, festas populares e grandes espetáculos frequentemente ocupam o centro das atenções enquanto problemas essenciais permanecem sem solução.
Não parece razoável que cidadãos aguardem anos por cirurgias e exames enquanto autoridades viajam, às custas do contribuinte, para acompanhar partidas internacionais. A violência, a precariedade do ensino público, a falta de infraestrutura e até a insegurança alimentar continuam presentes.
Enquanto isso, a bola rola. E as prioridades continuam fora de campo.
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