Antes que o DAIA se transformasse em uma das maiores concentrações industriais do Centro-Oeste, um vendedor já enxergava ali o futuro. Quatro décadas depois, a Vibracom tornou-se referência nacional em artefatos de concreto
Havia apenas duas ou três indústrias instaladas no Distrito Agroindustrial de Anápolis quando um jovem técnico, para uma visita de trabalho, atravessou o pórtico de entrada do DAIA pela primeira vez. O que encontrou naquele início de manhã não foi apenas um canteiro de obras ou um projeto governamental ainda embrionário. Enxergou um futuro.
O céu limpo, o verde que cobria a paisagem depois da chuva da noite anterior, as avenidas largas e a sensação de que tudo ainda estava por ser construído produziram uma impressão difícil de explicar. Décadas depois, Ubiratan Lopes ainda recorda aquele dia como se tivesse acontecido ontem. “Eu vi futuro onde muitos viam apenas mato e avenida vazia. Senti que ali começaria a minha história”, diz. Não era apenas uma visita técnica. Era o reencontro com a cidade onde construiria a família, desenvolveria sua empresa e ajudaria a escrever um importante capítulo da industrialização goiana.
Naquele momento, Anápolis ainda dava os primeiros passos para se tornar um dos maiores polos industriais do Centro-Oeste. Poucos conseguiam imaginar o tamanho da transformação que viria. Ubiratan foi um deles.
Formação sólida
Sua trajetória profissional começou na então Escola Técnica Federal de Goiás. A formação abriu as portas para a Volterrana, empresa com sede em Goiânia, mas de origem francesa, especializada em lajes para construção civil, considerada bastante avançada para a época.
Durante oito anos percorreu praticamente todos os setores da empresa. Trabalhou na produção, na assistência técnica, na fiscalização de obras, nas vendas e na gestão, acumulando uma experiência rara para um profissional ainda jovem.
“Eu quis aprender tudo antes de mandar em qualquer coisa. Passei por cada setor para entender o negócio de verdade”, afirma. Foi justamente esse conhecimento que despertou a confiança de seu diretor, Homero de Araújo, quando surgiu a necessidade de instalar um escritório da empresa em Anápolis. Outros profissionais recusaram o desafio. Ubiratan aceitou imediatamente.
Decisão corajosa
Pouco mais de um ano depois de chegar à cidade, uma nova escolha definiria os rumos de sua vida. Em vez de permanecer na segurança do emprego, decidiu construir o próprio negócio. Chegou a pensar em investir na avicultura, segmento que vivia expansão em Goiás. Foi novamente o antigo patrão quem o fez refletir.
A orientação foi simples e direta: em vez de abandonar um setor que conhecia profundamente, por que não aproveitar toda aquela experiência para criar uma empresa própria? “Ele me disse: você já tem oito anos de concreto na veia, por que vai começar do zero em outra coisa? Aquilo me fez cair na real”, recorda.
Em janeiro de 1980 nascia a Lajes Goiás, em sociedade com um amigo, embrião do que se transformaria na Vibracom. Era o início de uma caminhada sem atalhos.
Nova etapa
Depois da separação amigável da primeira sociedade, Ubiratan fundou oficialmente a Vibracom, em 10 de outubro de 1986. A estrutura era modesta. Quatro funcionários dividiam com ele todas as tarefas. Não havia departamentos. “Eu vendia, cobrava, carregava caminhão. Não tinha glamour, tinha muito trabalho. Mas a dedicação era proporcional ao sonho”, diz.
Poucos meses depois, o Brasil mergulhou em um dos períodos mais turbulentos de sua história. O Plano Cruzado alterou a dinâmica do mercado. Vieram desabastecimento, falta de matérias-primas, inflação e insegurança. “Muita gente fechou naquele Plano Cruzado. Para mim foi a primeira grande escola de como sobreviver na crise”, lembra. Para a Vibracom, tornou-se uma grande escola.
Relações humanas
Ao recordar aquele período, Ubiratan destaca um aspecto decisivo para a sobrevivência: o relacionamento construído com a comunidade anapolina.
Enquanto aço, cimento e outros insumos desapareciam, fornecedores e parceiros faziam questão de ajudá-lo. Não havia privilégios. Havia confiança. Era o resultado de anos cultivando amizades, respeito profissional e credibilidade. “Não era privilégio, era confiança. O pessoal me ligava e dizia: separei material para você. Isso vale mais que qualquer contrato”, afirma.
Essa experiência consolidou uma convicção que permanece até hoje: “negócios duradouros são construídos muito mais pela confiança do que pelas circunstâncias econômicas. As crises passam. Os relacionamentos permanecem”.
Crescimento constante
Ao longo de quatro décadas, o Brasil atravessou sucessivos planos econômicos, mudanças de moeda, recessões e ciclos de crescimento. A Vibracom sobreviveu a todos sem interromper sua trajetória. Enquanto muitas empresas apostavam em crescimento acelerado financiado por grandes empréstimos, Ubiratan escolheu outro caminho. Inspirado na filosofia de grandes industriais brasileiros, adotou um princípio simples: “crescer de forma constante, retilínea e uniforme”.
“Isso significava, muitas vezes, adiar investimentos, reduzir o ritmo de expansão ou esperar o momento adequado para adquirir novos equipamentos. Mas era o jeito certo de não quebrar”, explica. Essa disciplina permitiu crescimento sólido, ampliando instalações, diversificando produtos e conquistando novos mercados.

Olhar adiante
A mudança para o DAIA representou outro divisor de águas. A empresa saiu de uma área limitada para um complexo industrial com condições de expansão praticamente ilimitadas. Vieram novos equipamentos, processos mais modernos e uma cultura permanente de inovação. Participar das maiores feiras internacionais do setor da construção civil tornou-se rotina. Entre elas, a Canton Fair (Cantão, na China), a Batimat (Paris, França) e, especialmente, a Bauma (Munique, Alemanha), passaram a orientar os investimentos da Vibracom no mercado. “Se tem algo mais moderno no mundo, eu quero ver de perto. Sempre voltei dessas feiras com a cabeça fervilhando de ideias”, conta o empresário.
Foi desse contato permanente que surgiram tecnologias hoje incorporadas à produção da Vibracom. Mais recentemente, a empresa instalou uma das mais avançadas máquinas italianas para fabricação de artefatos de concreto do Centro-Oeste.
Capital humano
Apesar do avanço tecnológico, Ubiratan faz questão de afirmar que o maior patrimônio continua sendo formado pelas pessoas. Na Vibracom, tecnologia nunca substituiu relacionamento. “Pode ter a melhor máquina do mundo, mas sem gente boa, comprometida, você não vai a lugar nenhum”, diz.
Colaboradores com mais de trinta anos de casa convivem com profissionais que iniciaram como auxiliares e hoje ocupam cargos de liderança. Grande parte da equipe de gestão foi formada internamente. A empresa mantém acompanhamento psicológico, investe em treinamento contínuo e procura criar um ambiente onde crescimento profissional caminhe ao lado do desenvolvimento humano. “Mais que bloco e paver, a gente fabrica oportunidade”, resume.
Compromisso coletivo
A atuação de Ubiratan nunca ficou restrita ao ambiente empresarial. Ao longo dos anos participou ativamente de entidades representativas do setor produtivo, colaborando com iniciativas ligadas ao desenvolvimento econômico e ao associativismo.
Ubiratan presidiu o Sinduscom – Sindicato da Construção Civil de Anápolis. Comandou a ACIA – Associação Comercial e Industrial de Anápolis por dois mandatos, presidiu a FACIEG – Federação das Associações Comerciais de Goiás, liderou a FIEG Regional Anápolis – Federação das Indústrias do Estado de Goiás e, por último, presidiu o Sebrae Goiás.
Legado permanente
Ao falar de Anápolis, Ubiratan dispensa estatísticas e prefere lembranças do primeiro dia no DAIA. “Foi aqui que constituí família, criei meus filhos e consolidei minha empresa. Anápolis virou parte da minha identidade”, afirma.
Quarenta anos depois, é impossível separar a Vibracom da evolução industrial da cidade. Enquanto novas empresas chegavam ao DAIA, a empresa ampliava instalações e conquistava respeito nacional.
“Empresa sólida não nasce da pressa, nasce da persistência. E não sobrevive só de tecnologia, mas de confiança”, conclui.
Aquele jovem que atravessou o pórtico enxergando possibilidades acabou ajudando a construir parte da história de Anápolis.
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