Há, na sociedade brasileira, um vazio crônico formado por cerca de 30 a 40 mil indivíduos que, em sua maioria, não dispõem de acesso aos meios convencionais de sobrevivência e estão “condenados” a buscar alternativas de vida de forma desconhecida e despreparada. São moradores de instituições chamadas casas ou lares de acolhimento.
Por Vander Lúcio Barbosa
Crianças e adolescentes que, por variados motivos, não tiveram acesso aos sistemas convencionais de sociabilidade. Foram parar em creches, abrigos, asilos, orfanatos e estabelecimentos congêneres, independentemente de suas vontades.
São órfãos — inclusive de pais vivos — abandonados, esquecidos e isolados do convívio tido como natural, vivendo, de certa forma, alijados da estratificação social contemporânea. Oriundos de antigos estabelecimentos mantidos por governos e instituições filantrópicas para garantir-lhes apenas a sobrevivência fisiológica: casa e comida.
Ao longo do tempo, esses meninos e meninas têm vivido, com raríssimas exceções, como componentes de uma população invisível, quase abstrata, lembrada apenas em ocasiões festivas e por conveniência. Crescem, tornam-se adultos e, ao completarem 18 anos, idade limite para permanência nessas instituições, acabam “despejados”, muitas vezes sem terem para onde ir, justamente na passagem da adolescência para a vida adulta.
Vão, literalmente, para a rua, entregues à própria sorte. A maioria desconhece a própria origem e como foi parar nesses locais. É o primeiro passo para a desintegração social, pois se tornam vulneráveis. Grande parte acaba induzida a buscar caminhos fáceis de sobrevivência, expondo-se a vícios, más companhias, casamentos mal estruturados, falta de qualificação profissional e outros problemas que resultarão em dificuldades futuras.
A “garantia de sobrevivência” vai, geralmente, até os 18 anos. Depois disso, é “cada um por si”. Governos e instituições que deles cuidavam “lavam as mãos” e os entregam a um mundo desconhecido, cheio de armadilhas e desencantos. Sofrerão mais do que já sofriam desde que foram colocados nesses ambientes. Serão jogados às feras, até encontrarem seus próprios caminhos. Quando encontram.
Lamentavelmente, o Brasil não possui um projeto social consistente para cuidar dessas pessoas e oferecer oportunidades de readaptação à vida pós-abrigo. Falta um porto seguro, chance de trabalho, continuidade dos estudos e assistência efetiva, como prevê a Constituição ao falar em “igualdade de direitos”, expressão repetida em discursos políticos, mas que, na prática, raramente passa de retórica eleitoral. Um dia isso precisa mudar.
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