Tempos atrás, inspirado por uma mensagem pastoral do reverendo Samuel Vieira, escrevi que “ninguém lidera e nem constrói sozinho”. O tempo passou, os cenários mudaram, a tecnologia transformou a forma como nos relacionamos e a política descobriu novas maneiras de dialogar com a sociedade. Ainda assim, a essência daquela reflexão permanece surpreendentemente atual.
Vander Lúcio Barbosa
Toda liderança necessita de apoio. Seja na iniciativa privada, nas igrejas, nas entidades sociais ou na administração pública, nenhum projeto prospera sustentado apenas pela vontade individual de quem ocupa o comando. Liderar é reunir competências, distribuir responsabilidades e criar vínculos capazes de transformar intenções em realizações concretas.
A Bíblia oferece exemplos eloquentes. Moisés percebeu que não conseguiria conduzir sozinho o povo que lhe fora confiado. Salomão, ao assumir o reino, cercou-se de colaboradores alinhados à sua visão. Jesus investiu tempo na formação de discípulos, demonstrando que até a mais extraordinária das missões exigia participação coletiva.
A política contemporânea acrescentou novos elementos a essa velha lição. Se antes as alianças eram costuradas principalmente nos bastidores, hoje a liderança também se constrói diante das câmeras dos celulares. O governante percorre ruas, visita bairros, promove transmissões ao vivo e transforma a escuta popular em ferramenta de gestão.
Em Anápolis, por exemplo, o prefeito Márcio Corrêa tem adotado uma postura marcada pela proximidade com a população. Em vídeos publicados nas redes sociais, conversa com moradores, pergunta sobre problemas cotidianos e busca identificar demandas diretamente nas ruas. Em outras ocasiões, utiliza as próprias plataformas digitais para abrir espaço à participação dos cidadãos.
Ao mesmo tempo, compreende que nenhuma administração avança sem sustentação institucional. Obras, programas e investimentos dependem de articulações com diferentes esferas de poder, da capacidade de diálogo e da construção de convergências. Sem declarar alinhamentos rígidos, procura manter interlocução com diversos segmentos políticos, reunidos pela expectativa de resultados administrativos e também por interesses eleitorais legítimos do processo democrático.
Uns chamam isso de pragmatismo. Outros, de habilidade política e/ou oportunismo. Independentemente da interpretação, a realidade demonstra que governar exige muito mais do que autoridade formal.
O líder contemporâneo talvez tenha compreendido algo que atravessa séculos: ninguém possui sozinho todas as respostas. A boa liderança não se mede apenas pela firmeza das convicções, mas também pela humildade de reconhecer limites e valorizar contribuições externas.
Isso não significa abrir mão da própria identidade ou das responsabilidades inerentes ao cargo. Significa entender que projetos duradouros são frutos do esforço compartilhado. A população oferece o termômetro das necessidades reais; os colaboradores apresentam soluções; os aliados ampliam possibilidades; e o líder coordena essas forças em favor de um propósito maior.
No fim das contas, a grande lição continua a mesma. Ninguém lidera e nem constrói sozinho. A força de uma liderança reside menos na capacidade de falar e mais na disposição para ouvir; menos na imposição e mais na articulação; menos no protagonismo individual e mais na habilidade de reunir pessoas em torno de objetivos comuns.
Em tempos de polarizações e certezas absolutas, talvez seja justamente essa a virtude mais necessária: compreender que construir o futuro é, antes de tudo, uma obra coletiva.
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