Recentemente, a jornalista portuguesa Mafalda Anjos escreveu um artigo na Folha de S. Paulo sobre os “sem-vergonhas”. Apesar do tema sugestivo, a linha editorial seguiu um caminho mais politizado e ideologizado – diferente do que pretendo fazer neste meu texto.
Todos entendemos a vergonha como um mecanismo de regulação social, que serve como freio para impedir comportamentos excessivos, vulgares ou egoístas. Assim, a vergonha garante um padrão mínimo de civilidade e respeito mútuo.
Entendemos também que ela é uma espécie de superego cultural e coletivo formador da cultura e do pensamento social. Quando compreendida como senso de recato, honra, respeito pelo outro e pelas normas comunitárias, a vergonha cumpre papéis construtivos na vida em sociedade. Mesmo que seja vista, frequentemente, de forma negativa.
Sentir vergonha por algo que afeta os outros negativamente demonstra que a pessoa se importa com o impacto coletivo das ações que pratica – algo que reforça a solidariedade e o vínculo de pertencimento. Como pudor ou reserva, ela também protege o que é íntimo, vulnerável ou sagrado contra a exposição leviana, preservando a dignidade das pessoas.
No Brasil, a arte tem perdido o pudor. É certo que a arte abriga, em certa medida, um elemento de rebelião, mas o que aconteceu em 2011, no Museu do Piauí, foi bem diferente disso. À época, a peça teatral Macaquinhos, financiada pela Lei Rouanet, estreou com oito atores nus. Seguindo o roteiro, os atores andavam em círculo examinando o ânus uns dos outros. A peça foi tratada como arte, como parte integrante da nossa cultura. Também anos atrás, durante uma passeata realizada aqui em Anápolis, manifestantes pararam em frente a uma igreja católica e simularam o ato sexual.
Quando estigmatiza comportamentos que podem desonrar o grupo, a vergonha protege a reputação do mesmo. É quando o desprezo ou a perda de status tornam-se corretivos para que a pessoa repare o erro perante os outros. Por isso, escândalos financeiros em culturas orientais sempre desembocam no suicídio dos meliantes. No entanto, atitudes semelhantes são tratadas com cinismo em nossa cultura.
Exemplo disso são nossos políticos e magistrados, que agem de forma desavergonhada em relação às questões éticas e aos desvios de recursos públicos. Eles recebem as benesses de sistemas bancários e tomam decisões monocráticas certos de que não serão punidos. Vivem certos de que o silêncio, na era dos sem-vergonhas, é um excelente recurso para os sem-caráter trucidarem a lei e a moral em benefício próprio. Despudoradamente, eles também não se dão “ao luxo” de nos explicar.
Quando a vergonha deixa de ser um mecanismo de preservação para ser usada de forma destrutiva ou tóxica, ela gera impactos negativos e profundos nas pessoas e em nossa sociedade. Já temos colhido os efeitos disso: civilidade banida e erosão do decoro público.
Sem o freio moral do que é socialmente aceitável ou vergonhoso, comportamentos considerados grosseiros, vulgares ou egoístas são normalizados, reduzindo o padrão de respeito mútuo. O individualismo extremo ganha espaço e o impacto das ações sobre os outros deixa de ser uma preocupação. Uma sociedade sem vergonha perde a capacidade coletiva de se autocorrigir.
