Dentre todos os diálogos tensos e as sombras deixadas pelo Supremo Tribunal Federal (STF) nos últimos dias, o que mais me chamou a atenção foi uma pequena fala do Ministro Gilmar Mendes: “Mesmo o colega que esteja eventualmente envolvido, que teve um filho, não pode estar submetido a esse tipo de vexame. É uma atitude covarde, vil. Já disse isso em outro momento. Até a máfia tem ética. É preciso ter decência. Não se comporta dessa forma”.
A declaração foi feita no último dia 15, durante uma sessão tensa no STF. O decano da corte criticou a condução de investigações e vazamentos envolvendo conversas do banqueiro Daniel Vorcaro, relacionadas ao escândalo do Banco Master, e apontou o que considerou uma postura seletiva: a exposição inadequada de ministros e de seus familiares por parte do ministro André Mendonça.
A frase gerou debates intensos em meio à opinião pública e nas redes sociais sobre o corporativismo, o sigilo e os limites éticos na condução de investigações envolvendo autoridades dentro do próprio tribunal. Mas há uma pergunta que não quer calar: Máfia tem ética? Por incrível que pareça, a resposta certa é SIM!
A máfia tem ética. Trata-se de um código de conduta próprio, brutal e estrito, completamente desalinhado da ética universal, dos direitos humanos e da moralidade convencional de nossa sociedade. Para a máfia, o que chamamos de “crime” ou “imoralidade” é gerido por um conjunto rígido de regras internas de honra, lealdade e sobrevivência.
As organizações criminosas estruturadas dependem de uma coesão férrea para não implodirem. Por isso, possuem mandamentos e códigos de conduta muito claros a serem seguidos por seus membros – como a famosa “Lei da Omertà”.
Esse código de silêncio implica em lealdade absoluta à organização e a traição é punida com a morte. Segundo essa lei, o grupo vem antes da própria família biológica. Há também respeito aos pares e à hierarquia na qual a submissão aos chefes é inquestionável, além da proteção mútua e do sigilo. Ou seja: não se pode, jamais, colaborar com a justiça ou revelar segredos da “família”, pois os interesses coletivos do grupo devem ser protegidos. Por essas razões, Vorcaro se mantém em silêncio. Ele entende claramente tais códigos.
Na máfia, os integrantes podem matar, fraudar, roubar, mentir, mas jamais denunciar seus pares. A “Ética da Máfia” é estritamente tribal e o código de honra vale apenas dentro do grupo. Para a sociedade, o Estado e as vítimas, vale a lei da exploração, da intimidação e da violência. O que é imoral para a nossa sociedade – extorsão, contrabando, homicídio, corrupção -, para a máfia é um negócio. É a única forma de sobreviver e ter poder em um mundo considerado hostil e corrupto.
Historicamente, muitas máfias se legitimaram fingindo proteger os fracos e se posicionando como mantenedoras de uma ordem onde o Estado era ausente. Assim, imprimiram uma falsa ideia de nobreza em torno de suas ações criminosas.
Portanto, sim, há regras e há também honra e ética na máfia, mas é uma ética distorcida, baseada na força, no sangue e na lealdade a um sistema criminoso. É um código de ética que prova que o ser humano é perfeitamente capaz de criar códigos morais extremamente rígidos para justificar e sustentar as práticas mais destrutivas. André Mendonça feriu esse código. Isto é imperdoável…
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