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A Praça da Alegria – Por Samuel Vieira

de Samuel Vieira
6 de junho de 2026
em Geral
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Foto: Douglas Pinto

Foto: Douglas Pinto

Em Sao Luis-MA, existe uma praça, localizada no bairro da Madre Deus, no centro da cidade, chamada de “Praça da Alegria.” Nome sugestivo que esconde uma complexa e emblemática história.

A Praça da Alegria, é um dos exemplos mais contundentes de como o nome de um lugar pode atuar como um exorcismo coletivo. Antes de ser o reduto da folia e da boemia que conhecemos, o local carrega um passado sombrio.

No período colonial e imperial, servia como o patíbulo da cidade. Em uma época em que o poder punitivo do Estado precisava ser visível para manter a ordem, as execuções eram realizadas em espaços abertos e centrais — e o Largo da Forca era o lugar onde a justiça (ou o que se entendia por ela na época) era aplicada sob o olhar da multidão. Muitos afirmam que o nome atual tinha a ver, lamentavelmente, com o fato que, no dia do enforcamento dos escravos rebeldes e fugitivos, era um dia de festa. No meio de todo o contexto macabro, as pessoas bem-vestidas estavam se alegrando.

Mesmo assim, imagine a atmosfera daquele espaço: o medo, o silêncio fúnebre, a presença da autoridade e o peso da morte. Era um “não-lugar” marcado pela tragédia, um espaço de exclusão onde o destino de homens era selado de forma brutal. Por muito tempo, a região carregou esse estigma. Locais onde execuções ocorriam eram naturalmente evitados pela população após o anoitecer, envoltos em lendas e superstições sobre almas penadas. Se de fato o nome atual da praça tinha relação com este dia “festivo”, temos, então, um espectro do que a filósofa alemã Anna Arendt chamou de “a banalização do mal.”

Outra teoria mais plausível é que o nome atual seja uma transmutação cultural. A mudança para “Praça da Alegria” foi a forma como a população procurou exorcizar o “ranço” e apagar a memória cruel da história e ressignificar o local, dando-lhe uma pintura amigável. A população local, com sua cultura carnavalesca, suas festas religiosas e sua boemia foi ocupando esse espaço de medo até transformá-lo em um território de celebração. Onde antes havia a morte institucionalizada, o bairro colocou a vida, a música e a dança. Renomear um local como “Alegria” onde antes era “O largo da Forca” é uma forma de dizer: “Aqui não habita mais a morte, aqui habita a celebração”.

A cidade tenta, desta forma, ao longo de décadas, sobrepor uma camada de “alegria” sobre um passado que deve ser apagado da memória, tentando assim reinterpretá-lo. A praça deixou de ser um monumento à morte para se tornar uma ode à sobrevivência.

A história desta aponta para um elemento de esperança: O tempo, quando aliado à cultura e ao afeto, tem o poder de transformar até o mais trágico dos cenários em um ponto de encontro. A Praça da Alegria não apagou o passado — a história da forca ainda é conhecida e precisa ser lembrada como uma mancha histórica de um povo que esvaziou tanto o conceito de humanidade que celebrava o evento como um momento especial de festa para a cidade. Apesar desta dura realidade, ela demonstra que o presente é capaz de ressignificar qualquer memória.

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