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Arrependimento esquecido – Por Samuel Vieira

de Samuel Vieira
19 de julho de 2026
em Artigo
Reading Time: 3 mins read
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Imagem: Reprodução

Imagem: Reprodução

As pessoas esquecem seus maiores arrependimentos da vida. O paradoxo da memória humana é que, embora o esquecimento dos nossos maiores arrependimentos funcione como um mecanismo de defesa necessário para seguirmos em frente, esquecer carrega um perigo severo: a supressão do aprendizado. Por isso é que erros do passado que causaram grandes dores e graves consequências podem se repetir. É como se o fracasso e a dor nada nos nos ensinassem.

Corremos o risco de transformar o erro e o fracasso em nada mais que uma história inofensiva, em vez de mantê-los como Manual de Instruções para o presente. Nesse caso, a frase de Hegel é mais que apropriada, embora ele tivesse se referido ao ciclo patético das civilizações de repetir comportamentos: “Se a História nos ensina alguma coisa, nos ensina que não nos ensina nada.”

O arrependimento é a única emoção que tem o poder de nos ensinar sobre os limites do nosso próprio caráter. Quando o esquecemos, desativamos o sistema de alerta. Se esquecermos o motivo pelo qual sentimos dor, perdemos a capacidade de identificar o gatilho que a causou. É quando o erro deixa de ser algo superado e passa a ser algo com nada aprendemos. Dessa forma, cria-se o ciclo vicioso da repetição. Repetimos os erros do passado e sofremos a pena novamente. O arrependimento não ajuda.

Arrependimento, na perspectiva da espiritualidade clássica cristã, literalmente, significa “voltar atrás.” A ideia bíblica de arrependimento é muito mais profunda que o simples sentimento de culpa ou remorso. Não se trata apenas de se sentir mal pelo que foi feito, mas de passar por uma transformação radical que muda nossa direção.

No Novo Testamento, o termo mais importante para arrependimento é “metanoia” – do grego meta (mudança) + nous (mente). Portanto, de acordo com o conceito bíblico fundamental, arrepender-se é mudar de mentalidade, o que também leva o  leva o arrependido a mudar de conduta.

Não podemos, simplesmente, ignorar o que gerou tanta dor, culpa, tristeza e sofrimento a nós e aos outros. Por isso, arrependimento significa, literalmente, “dar meia-volta”. É o movimento de quem estava caminhando para longe de Deus e decide, de forma deliberada, retornar para Ele.

Na parábola do Filho Pródigo, registrada pelo evangelista Lucas, o arrependimento ocorre quando o filho “cai em si” e toma a decisão de se levantar e voltar para a casa do pai. O sentimento de tristeza pelo vazio que ele vivia foi apenas o combustível para a ação de voltar.

Já na definição paulina, o arrependimento é uma “tristeza, segundo Deus”. Uma tristeza focada na ofensa feita a Deus e na quebra do relacionamento com Ele, mas que traz restauração e não para na culpa. Por isso, o verdadeiro arrependimento nos protege contra a repetição, ao contrário da “amnésia seletiva”, usada constantemente esquecer os arrependimentos.

É fundamental lembrarmos do arrependimento como um memorial de mudança. Quando esquecemos os maiores arrependimentos por negação ou por um desejo excessivo de conforto emocional, perdemos a memória do custo que pagamos pela experiência do erro cometido e corremos o risco de repeti-lo. O objetivo, naturalmente, não é viver remoendo o passado, mas manter o arrependimento como uma âncora de sabedoria.

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