Endocrinologista de Anápolis afirma que os medicamentos da classe GLP-1, quando bem indicados, oferecem segurança cardiovascular comprovada em grandes ensaios clínicos
O debate sobre o uso de medicamentos à base de semaglutida ganhou novos capítulos com a iminente quebra de patentes de grandes marcas do mercado. No centro da discussão, médicos e pacientes buscam entender o que a ciência realmente já demonstrou sobre benefícios e riscos dessa classe terapêutica.
Com milhões de prescrições acumuladas globalmente desde 2017 e uma base crescente de ensaios clínicos de larga escala, a comunidade científica hoje dispõe de dados sólidos. O foco, porém, vai muito além da perda de peso: o que está em jogo é a prevenção de infarto, AVC, insuficiência renal e doença hepática.
Não são “canetas emagrecedoras”
O médico endocrinologista Jorge Cecílio Daher Jr., que acaba de retornar do congresso anual da Associação Americana de Diabetes (ADA), realizado em Nova Orleans, faz questão de corrigir o enquadramento popular. “Esses medicamentos não são emagrecedores. São tratamentos cardiometabólicos que, entre seus efeitos, promovem perda de peso significativa. A redução de peso é um dos mecanismos, não o objetivo final.”
Ele explica que a exigência regulatória é rigorosa: “Desde 2008, o FDA exige que qualquer novo medicamento para diabetes comprove, no mínimo, que não causa dano cardiovascular. Isso é feito com ensaios enormes, envolvendo milhares de pacientes acompanhados por anos. A semaglutida não apenas cumpriu esse requisito de segurança, ela foi além: demonstrou redução de eventos cardiovasculares maiores tanto em pacientes com diabetes quanto, mais recentemente, em pessoas com obesidade sem diabetes, no estudo SELECT.”De fato, as doenças cardiovasculares permanecem como a principal causa de mortalidade no mundo.
A obesidade, longe de ser uma questão estética, é hoje reconhecida como o eixo central de uma síndrome que conecta diabetes, doença cardíaca, renal e hepática. Tratar a obesidade com ferramentas eficazes é tratar esse eixo.
O que a ciência diz sobre os riscos oculares
Recentemente, relatos nas redes sociais sobre supostos riscos de cegueira associados à semaglutida geraram alarme entre pacientes. Daher reconhece que existe um dado real por trás da preocupação, mas contextualiza: “No estudo SUSTAIN-6, publicado no New England Journal of Medicine, houve um aumento de complicações de retinopatia em pacientes que já tinham retinopatia diabética prévia. Isso provavelmente acontece pelo mesmo mecanismo que já conhecemos da insulinoterapia intensiva: quando a hemoglobina glicada cai rápido demais, a retina já comprometida pode piorar transitoriamente.”
Segundo o endocrinologista, isso não contraindica o uso do medicamento, mas exige cuidado. “O que isso significa na prática é que o paciente com retinopatia diabética precisa de acompanhamento oftalmológico mais próximo ao iniciar o tratamento. Não é motivo para não tratar; é motivo para tratar com monitoramento adequado.”
Riscos em perspectiva
Ao ponderar a proporção entre complicações relatadas e a escala de pacientes tratados com sucesso, Daher coloca os números em contexto: “Quando olhamos para os eventos adversos graves nos grandes ensaios clínicos, a incidência é inferior à prevalência da própria doença cardiovascular na população com obesidade que não recebe tratamento. Ou seja, o risco de não tratar é comprovadamente maior do que o risco do medicamento.”Ele acrescenta que os efeitos colaterais mais comuns: náusea, desconforto gastrointestinal, são transitórios e manejáveis com titulação adequada da dose. “A grande maioria dos pacientes tolera bem o tratamento quando o início é gradual e o acompanhamento é próximo.”
O desafio que permaneceDaher, entretanto, faz uma ressalva que ouviu reforçada no congresso em Nova Orleans: “O que ficou muito claro neste ADA é que ter medicamentos excelentes não resolve o problema sozinho. Os dados americanos mostram que apenas cerca de um em cada cinco pacientes com diabetes consegue atingir todas as metas de tratamento ao mesmo tempo: controle da glicemia, da pressão, do colesterol e parar de fumar. E essa proporção é ainda pior entre pessoas de baixa renda, jovens adultos e minorias raciais.”
Para o endocrinologista, o acesso e a adesão ao tratamento continuam sendo os verdadeiros gargalos. “Não adianta termos a melhor molécula do mundo se o paciente não consegue comprá-la, não entende por que precisa usar, ou abandona o tratamento por falta de acompanhamento. A ciência fez a parte dela. Agora o sistema de saúde, as políticas de acesso e nós mesmos, na forma como conduzimos a consulta, precisamos fazer a nossa.”
