Mudança de hábitos e influência de outras culturas, ao longo das décadas, determinaram novo comportamento do mercado e colocaram fim a um virtuoso ciclo econômico
Anápolis, até os anos 70/80, era cognominada a “capital do arroz”, pela grande quantidade de máquinas para o beneficiamento desse cereal. Regiões como Maracanã, Jundiaí Industrial e Vila São Jorge ofereciam grandes espaços para o armazenamento de milhares de toneladas do “arroz em casca” advindo do Vale do São Patrício (Ceres e cidades próximas), além do antigo Norte Goiano, hoje Tocantins. O arroz vinha também do Maranhão e do Pará, onde os equipamentos para benefício eram quase inexistentes. As ruas próximas às ‘máquinas de arroz’ eram ocupadas por centenas de caminhões nas filas, à espera da descarga.
O volume era tamanho que em grande parte dos casos o arroz era espalhado nas ruas para secagem ao sol. O beneficiado seguia para centros consumidores (Goiânia e Brasília) principalmente, mas alcançava mercados como Rio e São Paulo. Era a “era de ouro” do arroz, com excelente oferta de empregos em diferentes modalidades. O capital circulante com o comércio do arroz era substancial e compunha grande parte do PIB anapolino.
Mas o ciclo áureo arrefeceu com o fim da monocultura que cedeu lugar às lavouras de soja, pastagens e canaviais para usinas de açúcar e álcool, principalmente etanol. A montagem de beneficiadoras em várias cidades ao longo da BR 153 (Belém-Brasília) reteve boa parte do fluxo que se destinava a Anápolis. Hoje, o Município tem pouquíssimas máquinas, de porte bem menor que há 40, 50 anos. Muitos dos gigantescos armazéns que serviam ao negócio do arroz hoje estão praticamente abandonados e/ou se transformaram em sedes para outros projetos. Também desapareceu grande parte das tradicionais marcas de arroz beneficiado e empacotado em Anápolis.
Novo ciclo
Esta semana, a notícia de que Goiás importa 70 por cento do arroz que consome surpreendeu muita gente. A informação é da Agência Goiana de Defesa Agropecuária (AGRODEFESA) que anuncia proposta para recuperação da produtividade do arroz goiano, a partir do Nordeste do Estado, mais precisamente do Vão do Paranã. Pelos estudos iniciais, é bastante viável obter boa produtividade naquela parte do Estado.
Estudiosos da agricultura em Goiás entendem que a rizicultura (cultivo de arroz) no Estado passa por momento de transição e busca por reestruturação. Confirmam que o setor responde por cerca de 30% do consumo interno, mas com amplo potencial de expansão tecnológica e de novas fronteiras agrícolas. Hoje, o povo goiano consome arroz do Rio Grande do Sul (70 por cento da produção nacional), do Paraguai, Uruguai, Argentina e até da Tailândia. É um contrassenso Goiás importar quase 70% do arroz consumido por sua população, apesar de seu forte papel no agronegócio nacional. Nos anos 80, o estado já foi um dos três maiores produtores do País, mas perdeu espaço com a alta competitividade da Região Sul.
O cultivo no Estado divide-se entre o arroz irrigado por inundação (tradicional) e o arroz de terras altas (sequeiro ou cultivado sob pivô central). Os municípios de Flores de Goiás e São Miguel do Araguaia destacam-se na produção irrigada por inundação. A grande novidade surgiu no Vão do Paranã (Nordeste Goiano), já considerado nova fronteira agrícola para o cereal, com áreas irrigáveis que podem alcançar 13 mil hectares.
Do outro lado do mapa, Rio Verde e Jataí, no Sudoeste goiano, são referências no cultivo de terras altas integrado ao sistema de pivô central e rotação de culturas. O uso de novos cultivares e o manejo com pivôs centrais têm elevado a produtividade por hectare. Como obstáculo, há concorrência direta por espaço em armazéns tradicionais, que priorizam culturas de maior volume no Estado, como soja e milho.
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