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O Gato de Schrödinger – Por Samuel Vieira

de Samuel Vieira
26 de julho de 2026
em Artigo
Reading Time: 3 mins read
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Imagem: Sven Puth / EyeEm/Getty Images

Imagem: Sven Puth / EyeEm/Getty Images

Em 1935, o físico austríaco Erwin Schrödinger, propôs um experimento mental não para descrever um gato real, mas para ilustrar, de forma quase absurda, os problemas da interpretação da mecânica quântica quando aplicada a objetos do nosso dia a dia.

Um gato foi colocado dentro de uma caixa lacrada, com um dispositivo contendo uma partícula radioativa, um contador Geiger e uma pequena quantidade de veneno. Se um único átomo da substância radioativa se desintegrasse, o contador Geiger detectaria a radiação e liberaria o veneno matando o gato. De acordo com a mecânica quântica, até que alguém abrisse a caixa, o átomo estaria simultaneamente “decaído” e “não decaído” (superposição). Consequentemente, o gato estaria em uma superposição de estados: vivo e morto ao mesmo tempo.

Para Schrödinger, o gato não estaria vivo ou morto; ele habitaria um campo de todas as possibilidades. Segundo ele, existencialmente, enquanto não tomamos uma decisão, mantemos todas as versões de nós mesmos vivas. A fase de “superposição” é onde reside a nossa angústia existencial, pois o peso das possibilidades não realizadas nos persegue enquanto não abrimos a caixa da ação. O ato de observar força a natureza a escolher um estado (vivo ou morto).

Este experimento é uma metáfora filosófica sobre a condição humana diante da incerteza. Na vida cotidiana, vivemos constantemente com “caixas fechadas”: um projeto cujo resultado desconhecemos, um relacionamento em crise, uma decisão profissional pendente. A metáfora nos ensina que, enquanto a caixa está fechada, a nossa mente é capaz de sustentar cenários opostos — esperança e medo — ocupando o mesmo espaço. sofremos porque ficamos presos ao estado de superposição, com medo de “abrir a caixa” e encontrar um resultado que desfaça a possibilidade de sucesso. É a angústia de preferir a dúvida, onde tudo é possível, à realidade, que, por definição, é singular e muitas vezes limitante.

Tomar uma decisão é, essencialmente, um ato de colapso de possibilidades. Ao escolher um caminho, descartamos todos os outros, e é essa perda das outras versões de nós mesmos que gera a dor da escolha. A realidade é que não podemos viver em superposição por muito tempo sem que isso nos desgaste. A insistência em manter estados contraditórios — querer ser livre, mas desejar a segurança, querer mudar, mas manter os velhos hábitos — gera uma dissonância que drena a nossa energia.

O Gato de Schrödinger nos ensina que a realidade é uma caixa de possibilidades esperando por uma definição. A genialidade, portanto, não reside em multiplicar os temas do mundo, mas em multiplicar a maneira como os olhamos. Quando alteramos a linguagem através da qual descrevemos o cotidiano, deixamos de ser meros espectadores para nos tornarmos os arquitetos da nossa própria percepção. O extraordinário não é o que está longe, mas o que aprendemos a pensar de forma diferente no que já estamos cansados de ver. O que importa na criação não é ver o que nunca foi visto, é pensar o que nunca foi pensado naquilo que vemos no dia a dia.

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