O desgaste da bateria também influencia o preço dos usados.
O mercado de carros elétricos cresce no Brasil e, com ele, aumentam as dúvidas sobre a durabilidade, a manutenção e o destino das baterias. Em julho de 2026, veículos elétricos puros e híbridos alcançaram 21% de participação no mercado automotivo, segundo dados da Associação Brasileira do Veículo Elétrico (ABVE).
Em média, as montadoras oferecem garantias de oito a dez anos para as baterias de íons de lítio. No entanto, o fim da garantia não significa que o componente deixou de funcionar. Dependendo das condições de uso, a bateria pode manter entre 70% e 90% da capacidade original após esse período, e sua vida útil pode chegar a 15 anos.
O descarte exige atenção. Jogar esses componentes no lixo comum ou em aterros pode provocar vazamentos de metais pesados e compostos químicos tóxicos, contaminar o solo e os lençóis freáticos e causar incêndios químicos de difícil extinção. Além disso, o descarte irregular contraria a Política Nacional de Resíduos Sólidos.
Troca segura
O especialista em carros elétricos da Sociedade de Engenheiros da Mobilidade (SAE Brasil), Wanderlei Marinho, orienta que a substituição seja feita em concessionárias ou redes de oficinas autorizadas e homologadas pelo Ibama.
“A remoção exige equipamentos de proteção específicos e isolamento elétrico de alta tensão”, explica o engenheiro.
Para combater o descarte inadequado, Wanderlei defende medidas de rastreabilidade e investimentos em infraestrutura. Entre as propostas, estão o monitoramento eletrônico de veículos que saem de circulação, para coibir o desmonte ilegal e o descarte clandestino, e o incentivo à implantação de usinas de reciclagem próximas aos grandes centros urbanos. Segundo ele, essas medidas podem tornar o processo economicamente viável.
O professor César Menezes, da área de manutenção automotiva do Senai Pernambuco — instituição que desenvolve o primeiro projeto brasileiro de baterias de lítio para veículos híbridos —, também destaca a importância de agir rapidamente diante de uma contaminação.
“Para mitigar esses efeitos deve-se primeiramente conter a fonte de contaminação, coletar a bateria e destiná-la a uma das empresas de reciclagem para que o procedimento seja realizado e, por fim, recuperar o ambiente contaminado através de análises ambientais e aplicação de técnicas de remediação adequadas”, defende César.
Segunda vida
Antes da reciclagem, as baterias retiradas dos veículos podem ser reaproveitadas. Mesmo quando já não oferecem autonomia suficiente para a condução, elas ainda podem armazenar energia em sistemas estacionários, como os utilizados em instalações residenciais e industriais.
“Quando a bateria atinge cerca de 75% a 80% da sua capacidade e perde a autonomia ideal para o carro, ela pode ser desmontada e redirecionada para aplicações estacionárias, como armazenamento de energia solar ou eólica, para uso residencial e industrial”, explica Wanderlei.
Quando o reaproveitamento deixa de ser viável, a alternativa é a reciclagem industrial. Uma das tecnologias mais eficientes combina o desmembramento mecânico das células com processos de hidrometalurgia.
Esse método permite recuperar entre 93% e 99% de componentes como lítio, cobalto, níquel e manganês. Os materiais recuperados podem, então, retornar à cadeia produtiva para a fabricação de novos produtos.
A infraestrutura de reciclagem está em expansão no Brasil para acompanhar o crescimento da frota de veículos elétricos e atender à demanda por soluções adequadas para o fim da vida útil das baterias.
Cuidados essenciais
A durabilidade da bateria depende também dos hábitos do motorista e da manutenção do veículo. Segundo Bruno Souza, da área de manutenção automotiva do Senai-PE, algumas práticas ajudam a preservar o componente.
“Evitar exposição prolongada a temperaturas elevadas, não deixar a carga chegar frequentemente a níveis muito baixos (menos de 20%) durante longos períodos, evitar manter a bateria constantemente em 100% quando isso não for necessário e utilizar carregadores recomendados pelo fabricante”, orienta.
Wanderlei Marinho acrescenta que o sistema de arrefecimento merece atenção, pois ajuda a proteger as células contra a degradação provocada pelo calor.
“O sistema de gerenciamento térmico do carro protege as células contra degradação por temperatura. Realizar as revisões do fluido de arrefecimento do sistema elétrico conforme o manual é indispensável”, pontua.
Mercado de usados
A condição da bateria também influencia o preço de revenda dos carros elétricos. O receio de arcar com uma substituição cara pode reduzir o interesse dos compradores e afetar o valor dos veículos usados.
De acordo com Wanderlei, essa preocupação já provoca uma desvalorização significativa.
“Há uma depreciação acentuada por causa do receio do consumidor final quanto ao custo de reposição, já que a bateria pode representar uma parcela importante do valor do veículo novo”, afirma.
Para o especialista, o mercado deverá avaliar cada vez mais os veículos usados com base no SoH (State of Health, ou Estado de Saúde) da bateria, indicador que permite verificar as condições do componente em relação à sua capacidade original. Laudos técnicos podem ajudar a comprovar esse estado de conservação.
Outra tendência da indústria global é o chamado “passaporte da bateria”, registro digital que reúne informações sobre o histórico de recargas, a saúde e o uso do componente.
“Isso trará transparência e segurança jurídica para o comprador de um veículo usado”, conclui o especialista da SAE Brasil.
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