O padre José Eduardo de Oliveira e Silva – da Diocese de Osasco – escreveu certa vez que lá pelos idos de 1999 havia aparecido em Guarulhos “um padre de manual:” batina impecável, faixa, peregrineta, barrete, breviário na mão, óculos redondinhos… A iconografia inteira, cuidadosamente pendurada no corpo.
Ainda não havíamos passado pelo 11 de setembro e os aeroportos ainda tinham a displicência civilizada de quem não suspeita das pessoas. No entanto, um policial – homem de ofício e sem vocação para o encantamento – teria olhado e achado o padre “perfeito demais!”.
De fato, perfeição em excesso tem cheiro de fraude e por isso o policial teria mandado revistar o religioso. E sob a negra batina – negra como convém aos símbolos quando querem ser definitivos – vieram à luz alguns quilos de pó.
O susto não foi só do policial. Foi nosso também porque a cena tinha a obscenidade pedagógica das coisas verdadeiras, de modo que a aparência não era apenas uma máscara, mas uma estratégia – já que tudo que não é verdadeiro precisa esmerar-se para parecer de verdade.
Na época, ouvimos como anedota, mas hoje percebo que o tempo transformou o fato em parábola eclesiológica! A cena era típica e o cenário, patético. Tudo era mesmo só aparência.
Afinal, “quando a esmola é grande o santo desconfia.”
Sempre me assusto com pessoas perfeitas demais. Certa vez, em um encontro de casais, afirmei que todos os casais passam por lutas, discussões e eventuais conflitos. Um casal levantou a mão e disse que eles nunca haviam brigado. Nunca haviam, sequer, discutido.
Eu não poderia discordar deles em público, mas me lembrei de uma anedota sobre a resposta que um preletor recebeu durante a palestra que ministrava. Quando o preletor afirmou que nenhuma mulher jamais encontraria um homem perfeito, um dos participantes disse que a mulher dele conhecia sim! Todos ficaram espantados, mas ele sorriu e completou: “Seu primeiro marido, que já faleceu.”
Nem a experiência nem o Evangelho dão permissão para que alguma pessoa seja considerada perfeita. A realidade do mal que habita em nós, da vida autocentrada, do desejo de ser admirado e cortejado nos levam a um estilo de vida vaidoso, orgulhoso, narcisista.
Você pode até admirar uma pessoa à distância, mas quando se aproxima dela, percebe que ela luta contra o mau humor, o desejo de controle ou mesmo contra a insegurança. A lista de fraquezas é quase interminável.
Filhos perfeitos e pais perfeitos só existem quando se ama de forma idealizada. O teólogo e escritor americano Tim Keller chama isso de “idealismo fantasioso.” Nessas relações, a codependência e a idolatrização do outro são marcantes.
É necessário um processo de negação para criar a fantasia do parceiro perfeito. O verdadeiro amor ama o imperfeito não porque há uma apreciação da imperfeição, mas porque entende que isso reflete a natureza humana.
Quando você encontrar uma pessoa perfeita, não se envolva com ela porque você vai criar problemas para ela. Afinal, você é imperfeito (a).
A Bíblia afirma que o amor cobre multidão de pecados – (1 Pe 4:8). O amor verdadeiro aprende a amar os diferentes e imperfeitos e foi isso que Deus fez conosco. Ele nos ama não é porque não erramos, mas porque essa foi a única forma de nos resgatar.
É por isso que somos salvos pela Graça, que é um “favor não merecido.” De acordo com o Evangelho, a salvação não é por méritos. Ou seja, o céu não é uma conquista de pessoas perfeitas ou mesmo dos que merecem. Deus nos dá o céu como presente. Quem julga alcançar o céu por merecimento, obras espirituais ou morais, ainda não entendeu a natureza e a beleza do que Cristo fez na cruz.
A Bíblia nos ensina que Jesus morreu por nós quando ainda éramos pecadores. A única perfeição e beleza moral que há é a de Cristo. Apenas Ele é perfeito!
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