Capa do Jornal do Brasil, de 2 de dezembro de 1993, há 33 anos. Semelhança com os tempos atuais?
A política brasileira sobrevive de escândalos. É o mais relevante combustível que movimenta a máquina eleitoral. A cada período são criados temas putrefatos que comumente servem para desviar a atenção do eleitor e se baseia na necessidade estratégica de grupos políticos que buscam imputar sua própria culpa aos adversários.
Nada como um escandalozinho e manobras maquiavélicas para despertar nas pessoas sentimentos que vão do descrédito ao escárnio, ao se aproveitar às vezes da ingenuidade, da alienação e, nos últimos tempos, do ódio que muita gente mantinha guardado, escondido no canto mais profundo da alma. E que, nos últimos anos, foi estimulada a manifestar.
Via de regra, essas táticas de manipulação estão acompanhadas de desinformação, negação da realidade, falácias, teorias da conspiração, fake News, falsas polêmicas e, muito usual, a cara-de-pau em imputar ao adversário seus próprios pecados. Alguém disse uma vez que “uma mentira repetida mil vezes torna-se verdade”.
Mas é evidente que os grandes escândalos políticos das últimas décadas não são invenções. Podem até ser manipulados de acordo com a cara do freguês. Mas não são invenções. Numa consulta rápida ao Google, encontrei uma reportagem publicada pelo Jornal do Brasil, em 1993. Ou seja, há 33 anos. Era sobre a CPI do Orçamento.
Ao ler o lead da matéria, a impressão é que a informação era sobre os tempos atuais. Falava de um esquema de corrupção envolvendo empreiteiras e políticos. Entre as empresas participantes do esquema estavam algumas das mesmas empreiteiras citadas décadas depois na Operação Lava Jato: OAS, Queiroz Galvão, Andrade Gutierrez, Camargo Corrêa e a própria Odebrecht. Curiosamente, a força tarefa da operação em 1993 era sediada em Curitiba (PR).
Escândalos – Agora, a bola da vez é o chamado escândalo do Banco Master. Mas outro dia foi o rombo do INSS. Um pouco antes foi o orçamento secreto (Sistema de distribuição bilionária de emendas parlamentares sem critérios de transparência ou rastreabilidade para garantir apoio no Congresso).
Vamos puxar um pouco mais a memória: o escândalo do MEC (propinas em barras de ouro), o esquema das rachadinhas; o escândalo da JBS; a mala de dinheiro do Rocha Loures; a Operação Zelotes; o Petrolão; a Lava Jato; o escândalo dos Correios; o Mensalão; a troca de favores no Congresso para aprovação da reeleição de FHC; a farra do PROER; o esquema do PC Farias; os escândalos fiscais na era Sarney; entre outros. Todos, sem exceção, utilizados para enriquecer alguns e, de quebra, influenciar os processos eleitorais.
Alguém se lembra da manipulação do debate feita pela TV Globo, em 1989? E a Lei da Anistia, em 1979, que perdoou tanto as vítimas da Ditadura Militar, quanto seus próprios adeptos (agentes públicos e militares) que cometeram crimes desde o golpe em 1964. A morte de Tancredo Neves e de JK até hoje suscitam desconfianças.
Agora, em 2026, parece que atingimos o ápice dessas manipulações. O que antes era feito de forma discreta, atualmente está escancarado. A impressão é que conseguiram fazer uma lavagem cerebral coletiva, que acomete milhões e milhões de brasileiros. É patético ver pessoas que pregam a não idolatria, mas que idolatram alguém que reconhecidamente comete crimes.
Hoje podemos facilmente apontar pessoas que, pela manhã, postam as mãos em adoração em seus templos de devoção, se apresentam como defensores da moral e dos bons costumes, mas, nas primeiras brisas noturnas, condenam pessoas marginalizadas, moradores de rua, negros, pobres e muitos outros que estão no lado mais fraco da corda.
Futricas – No âmbito nacional, os principais candidatos fogem dos debates. O modelo estabelecido pela grande mídia é, primeiro, explorar as futricas, denúncias (muitas não provadas) e os temas que provocam engajamentos nas redes sociais. E só depois, se sobrar tempo, tratar de questões de real interesse da população brasileira.
Quem tem boas propostas para gerar emprego e renda? Ampliar vagas nas escolas e creches, criar políticas públicas factíveis para acabar com as filas e assegurar o acesso dos mais vulneráveis a consultas, exames, cirurgias e medicamentos enquanto ainda estão vivas? E o déficit habitacional? E a segurança pública real? A redução dos feminicídios?
Uma rápida avaliação dos programas eleitorais obrigatórios, que estão no ar nas rádios e nas TVs desde o dia 16 de agosto, é suficiente para perceber que muitos dos políticos têm como principal – e alguns, como única – plataforma, tirar esse ou aquele do poder, evitar que esse ou aquele chegue ao poder. Um campo onde as ideologias se sobrepõem às dores reais do povo.
Aqueles que viveram e sofreram na Ditadura Militar – e os que se interessam pelo estudo sério de tudo o que aconteceu naqueles 21 anos no Brasil – entendem a necessidade de mantermos e fortalecermos a democracia no país. Sem entreguismos, sem populismos, sem arrogância. Mais realidade, menos oferta de sonhos inalcançáveis.
Passar o Brasil a limpo, é mais que botar ordem no STF, devolver o Congresso ao povo ou exigir que o governo governe de verdade. Temos debatido muito as reformas que rotulamos de ‘urgentes’ para o país: a tributária, a administrativa, a previdenciária, a eleitoral, a trabalhista. Mas, definitivamente, há reformas inadiáveis a se promover: a do caráter, a da ética e a do respeito ao próximo.
Ficar atento a questões como essas é essencial para evitar que sejamos vítimas de uma eleição que pode se configurar como a mais enganosa desde a redemocratização do país.
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