
Apesar de milenar, a Igreja Católica só iniciou sua doutrina social de maneira mais contundente em 1891, com a publicação da encíclica Rerum Novarum (“Das Coisas Novas”), de autoria do Papa Leão XIII. O momento exigia: o avanço industrial ocasionado pela Revolução Industrial, com a máquina a vapor, praticamente reduzia o trabalhador a uma mera engrenagem fabril, numa exploração brutal. A Rerum Novarum foi um contraponto contra essa desumanização, exigindo salários justos, limites na jornada de trabalho e direito de associação. Rejeitando o individualismo liberal e o coletivismo marxista, defendeu a propriedade privada e afirmou que nem o capitalismo sem limites nem o socialismo revolucionário ofereciam solução adequada para a questão social.
Exatamente 135 anos depois, em maio de 2026, o Papa Leão XIV promulgou a Magnifica Humanitas (“Magnífica Humanidade”), direcionando os olhos da Igreja para os dilemas éticos da Inteligência Artificial. Embora separadas por mais de um século e por abismos tecnológicos, ambas as encíclicas compartilham o mesmo DNA teológico: a defesa da dignidade humana diante das forças cegas do progresso material. Nenhuma delas, contudo, condena o avanço tecnológico.
Comparar as duas encíclicas exige compreender que a máquina a vapor e o algoritmo geraram crises de proporções semelhantes no tecido social. A mesma desumanização combatida pela Rerum Novarum reaparece na Magnifica Humanitas, agora sob a perspectiva de que a tecnologia não substitui apenas os músculos, mas simula o discernimento humano. Leão XIV alerta que o risco atual não é a servidão física na fábrica, mas a obsolescência da própria interioridade humana, transformando a eficiência algorítmica em valor supremo da sociedade.
A grande convergência entre Leão XIII e Leão XIV reside no papel atribuído ao trabalho e ao Estado. Para ambos, o trabalho não é apenas mercadoria econômica, mas caminho de realização e dignidade. Leão XIII defendia a intervenção estatal para proteger operários; Leão XIV clama por governança global capaz de regulamentar a IA e combater a precarização tecnológica do emprego.
Sim, as duas encíclicas ensinam que o progresso técnico é legítimo, mas jamais autônomo. Deve permanecer subordinado à ética e ao bem comum. Se em 1891 Leão XIII lembrou que o trabalhador não era escravo do capital, em 2026 Leão XIV reafirma que a humanidade não pode se tornar refém de seus próprios algoritmos. Afinal, nenhuma máquina possui a capacidade de amar, sofrer ou se relacionar. Proteger essa essência vulnerável e divina é o fio condutor que une essas duas importantes cartas da Igreja Católica.
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