Não sei se a Bíblia permitiria uma resposta simples como “sim” ou “não”. Afinal, as Escrituras foram registradas em épocas muito diferentes da nossa, quando não existia a democracia representativa que conhecemos hoje. No entanto, há princípios bíblicos que tornam difícil ao cristão tratar a vida coletiva com indiferença, como se o que ocorre ao seu redor não lhe dissesse respeito.
Ao observarmos episódios e personagens bíblicos que lidaram com responsabilidade, justiça e o cuidado com a cidade, uma pergunta inevitavelmente se impõe: até que ponto os rumos da sociedade deixam de ser problema nosso?
A Bíblia apresenta homens que não fugiram do serviço público. José assumiu funções de governo no Egito; Daniel exerceu autoridade sob diferentes impérios; Moisés se inquietou diante do sofrimento de seu povo; e os profetas confrontaram reis sempre que a justiça era violada.
Nenhum desses relatos trata diretamente do ato de votar. Seria, portanto, forçar o texto sagrado afirmar que Deus instituiu uma obrigação eleitoral nos moldes modernos. Por outro lado, há um padrão recorrente nas Escrituras: a apatia diante do sofrimento alheio e dos rumos da comunidade nunca é tratada como virtude.
O profeta Jeremias deixou uma orientação que soa notavelmente atual: “Procurai a paz da cidade”. A recomendação não era cuidar apenas do próprio teto, mas interessar-se ativamente pelo bem-estar do lugar onde se vive. E talvez resida aí o ponto central.
O brasileiro desanimado com a política tem motivos de sobra para o cansaço. Escândalos repetitivos, promessas vazias e a incômoda sensação de estagnação costumam alimentar a tentação do isolamento. Contudo, a frustração com os homens públicos não deveria se converter em desinteresse pelo bem comum. A questão fundamental talvez seja menos “em quem votar?” e mais: “o que faço com a responsabilidade que tenho diante da minha comunidade?”
A Bíblia não aponta candidatos, não escolhe partidos nem estabelece programas de governo. Tampouco autoriza a transformação da fé em mero instrumento de propaganda eleitoral. O que ela oferece são princípios sobre justiça, integridade, serviço, consciência e amor ao próximo.
Cabe a cada cristão observar criticamente a realidade, avaliar propostas e, diante da própria consciência, exercer sua cidadania. Afinal, participar da vida pública não significa depositar uma fé cega na política, mas sim reconhecer que o lugar onde vivemos também é de nossa responsabilidade.
