Nas eleições presidenciais, algo começou a mudar no comportamento do brasileiro. O eleitor ensaia trocar o retrovisor pelo para-brisa.
Por Vander Lúcio Barbosa
Durante décadas, a política foi concurso de currículos. Quem tinha mais obras e mais tempo de partido levava vantagem. O passado era garantia de futuro. Essa lógica se esgota.
O Datafolha que mostra que 43% acham que a vida ficará igual se Lula for reeleito revela cansaço. É descrença na repetição. A própria promessa da picanha e da cerveja, dele, rejeitada por 67% segundo o Paraná Pesquisas, mostra que slogan vazio já não cola.
Do outro lado, o cenário é igual. Promessas de ruptura fácil, de solução rápida no grito e no chavão, também não encontram eco. O eleitor desconfia de quem promete tudo sem dizer como.
Pesquisas da USP mostram que renda e escolaridade já não explicam o voto. Decide hoje expectativa de desempenho. O eleitor racional não olha para trás, olha para frente e pergunta: o que vai fazer por mim amanhã?
Por isso a abstenção recorde de 21% em 2026. Não é apatia, é exigência. Não quer saber só quem fulano foi, quer do seu projeto. Não quer chavão, quer plano com data e números.
A FGV aponta que só 14% acreditam na honestidade das eleições e 82% não confiam no governo. Esse mal-estar, que cresce desde 2010, criou um eleitor mais fiscalizador e maduro.
Provavelmente nestas eleições, nem tanto. Ainda podemos experimentar o voto no contra, e não no candidato, em razão da polarização. Mas, para as próximas, é certo que quem insistir em mostrar apenas o álbum de fotos do passado vai perder para quem apresentar o mapa do futuro.
O Brasil cansou de quem dirige olhando pelo retrovisor, contando vantagem do que já fez ou repetindo slogans que não se cumpriram. O eleitor quer aquele que tenha coragem de olhar pelo para-brisa e dizer com clareza para onde vai nos levar.
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