Inaugurado em 1951, o Mercadão chega aos 75 anos preservando tradições, movimentando a economia local e reunindo gerações de comerciantes cujas trajetórias se confundem com o próprio desenvolvimento de Anápolis
Poucos lugares em Anápolis conseguem reunir tantas histórias e transformações quanto o Mercado Municipal Carlos de Pina. Prestes a completar 75 anos de fundação, no próximo dezembro, o tradicional Mercadão permanece como um dos principais símbolos da cidade, resistindo ao tempo, às mudanças dos hábitos de consumo e ao surgimento de novas formas de comércio.
Localizado entre as ruas General Joaquim Inácio e 14 de Julho, no coração da cidade, o Mercado Municipal continua exercendo praticamente a mesma função para a qual foi criado em 1951: abastecer a população, gerar renda, fortalecer pequenos empreendedores e servir como ponto de encontro entre gerações.
Mais do que um prédio histórico tombado pelo patrimônio municipal desde 1984, o Carlos de Pina é um organismo vivo. Seus corredores guardam histórias de trabalho, superação, amizades e prosperidade construídas ao longo de décadas.
Talvez ninguém represente melhor essa trajetória do que Dona Maria Avelino. Aos 94 anos, ela mantém a rotina diária no mesmo local onde trabalha desde a inauguração do mercado. “Eu participei da inauguração desse mercado. Conheci Carlos de Pina e todos os prefeitos que vieram depois dele”, conta, com a memória preservada.
Vinda de Natal (RN) ainda jovem, Dona Maria construiu a sua vida dentro do Mercadão. Viúva ainda na juventude, criou oito filhos, formou uma nova família e viu gerações crescerem entre os corredores do mercado.
Seu filho, Aélcio, hoje com 62 anos, recorda a infância passada no local. “Eu e meus irmãos fomos criados aqui dentro. Dormíamos nas vitrines e nos baús da loja. Nossa criancice foi no Mercado Municipal, junto com os filhos de outras famílias que trabalhavam aqui.”
Cidade Crescente
A construção do Mercado Municipal ocorreu no final da década de 1940, período em que Anápolis vivia uma intensa expansão econômica impulsionada pela ferrovia e pelo fortalecimento do comércio regional. A inauguração oficial aconteceu em 25 de dezembro de 1951, data que marcou o surgimento de um dos mais importantes centros de abastecimento da cidade.
O nome do mercado homenageia Carlos de Pina, comerciante e liderança local que teve participação relevante no desenvolvimento econômico de Anápolis nas primeiras décadas do século passado.
Com traços da arquitetura Art Déco, o prédio rapidamente se transformou em referência urbana e comercial para gerações de anapolinos. Seus corredores testemunharam a evolução da cidade, as mudanças dos hábitos de consumo e a transformação do próprio comércio local.
Durante muitos anos, a produção hortifrutigranjeira que chegava a Anápolis passava pelo Mercadão. Os boxes eram ocupados principalmente por vendedores de frutas, verduras e legumes, formando um ambiente bem diferente do encontrado atualmente.
“Naquela época só se vendia hortifrúti. Não tinha eletrônicos, restaurantes, cafeterias e outras atividades que existem hoje”, recorda Odilon Guimarães. Aos 78 anos, ele acumula 59 anos de atuação no Mercado Municipal. Chegou a Anápolis ainda jovem para estudar e concluiu o curso de Contabilidade, profissão que nunca exerceu.
“Um amigo me convidou para trabalhar aqui. Acabei ficando. Quando ele decidiu seguir outra carreira, adquiri a banca e continuei o negócio. Não me arrependo. Como comerciante, ganhei muito mais do que teria ganho como contador”, afirma.
Ao longo de quase seis décadas atrás do balcão, Odilon acompanhou as transformações econômicas da cidade e do próprio mercado. “Vieram os supermercados, aumentaram as feiras livres, surgiram as frutarias. Tudo mudou. Mas o Mercadão continua aqui”, resume.
Tempos Dourados
Entre as décadas de 1950 e 1970, o Mercado Municipal viveu seu período de maior efervescência comercial. Além de abastecer Anápolis, tornou-se um importante entreposto regional de mercadorias, desempenhando papel relevante durante a construção de Brasília.

Marcos Piantino, representante de uma das famílias mais tradicionais do mercado, cresceu ouvindo dos pioneiros relatos sobre aquele período de intensa movimentação. “Na época da construção de Brasília, praticamente tudo saía daqui. Alimentos, secos e molhados, mercadorias diversas. O mercado ajudou a abastecer quem estava construindo a nova capital”, conta.


A Mercearia Piantino está entre os estabelecimentos mais antigos do Mercadão. Fundada por Antônio Piantino, tornou-se referência para sucessivas gerações de consumidores. Ao longo das décadas, os sete filhos do fundador passaram pelos balcões do negócio familiar, ajudando a consolidar uma trajetória que atravessa a história do mercado.
Hoje, aos 69 anos, Marcos acompanha de perto a rotina iniciada pelo pai nos anos 1950 e observa as transformações ocorridas ao longo do tempo. “O mercado mudou muito, acompanhou as mudanças da cidade e dos consumidores, mas a essência continua a mesma. Aqui as pessoas ainda compram confiando na palavra do comerciante”, afirma.


Herança Familiar
Uma característica chama atenção em praticamente todos os corredores do Mercadão: a continuidade dos negócios entre gerações. Em muitos boxes, filhos e netos assumiram atividades iniciadas por pais e avós, preservando tradições que atravessam décadas.
É o caso de Dora Maria de Souza. Ela e o marido deram sequência à tradicional Doceria Serve Bem, fundada pelo sogro logo após a inauguração do Mercado Municipal. O estabelecimento tornou-se referência entre os frequentadores, especialmente pelos doces de leite, figo, cocadas e pés de moleque, além dos queijos e produtos artesanais vindos da região.
Agora, a história caminha para a terceira geração. O filho Hander Richard já se prepara para assumir o negócio da família. “Grande parte dos nossos produtos vem de cidades próximas, como Nerópolis, Pirenópolis e Ouro Verde. É uma tradição que pretendemos manter”, afirma.
História semelhante vive a família Teixeira. Os irmãos Rodrigo e Renato herdaram do pai, Ildo Teixeira, o açougue que há décadas integra a rotina do mercado. Antes deles, outro irmão, Neto, também participou do negócio familiar. “Praticamente toda nossa vida foi aqui dentro”, resume Rodrigo.

Hoje, a principal clientela é formada por restaurantes, pequenos comerciantes e vendedores de refeições populares espalhados por diferentes regiões da cidade, mantendo viva uma atividade construída ao longo de gerações.


Mais que um comércio, um ponto de encontro entre o passado e o futuro. O Mercado segue firme, forte e tecnológico
Vida Construída
Se há alguém que simboliza a capacidade do Mercado Municipal de transformar vidas, esse alguém é Moacir Rezende. Aos 78 anos, ele acumula 41 deles no Mercadão. Mineiro de origem rural, chegou a Anápolis há mais de quatro décadas em busca de oportunidades e encontrou no mercado o caminho para construir sua história.
Em 1985, iniciou as atividades do Lanche Amarelinho vendendo apenas pamonha e café. Hoje, o estabelecimento tornou-se uma das referências gastronômicas do centro da cidade. “Criei meus três filhos aqui. Construí meu patrimônio trabalhando no mercado. Tudo o que tenho saiu daqui”, afirma.

Segundo ele, centenas de pessoas passam pela lanchonete todos os dias. Entre clientes e amigos, Moacir construiu uma rede de relacionamentos tão sólida quanto o próprio negócio. Seu filho caçula, Matheus, trabalha ao seu lado e deverá assumir a administração futuramente. “Essa é uma história que vai continuar”, diz.
Outra trajetória marcada pela perseverança é a de Nilson Caixeta, de 62 anos. Depois de trabalhar durante anos como balconista em uma peixaria, decidiu adquirir o negócio quando o antigo proprietário resolveu se aposentar.

A aposta deu certo. Ele ampliou o espaço da banca e consolidou uma clientela formada por consumidores de diferentes regiões da cidade, além de restaurantes que compram regularmente seus produtos. “Passei de empregado a dono. Trabalho de segunda a segunda e não vejo o tempo passar. Aqui, entre amigos, estou na minha segunda casa”, resume.
Novos Tempos
Sem abrir mão de suas raízes históricas, o Mercado Municipal acompanha as transformações dos hábitos de consumo e passa por um processo gradual de renovação. Entre os exemplos mais emblemáticos dessa nova fase está o Café Napolitano, empreendimento que une memória, tradição e contemporaneidade.
O espaço nasceu como uma homenagem a José Tadeu, tradicional vendedor de café artesanal do mercado, falecido em 2021. A iniciativa partiu de seu filho, o historiador Daniel Alves, que transformou o legado familiar em um ambiente dedicado à valorização da cultura cafeeira e da rica história ferroviária de Anápolis.

Com projeto inspirado nas modernas cafeterias urbanas, o estabelecimento conquistou rapidamente um público diversificado, especialmente jovens, turistas e casais. As atendentes Camila Alves e Geovana Amorim percebem essa mudança no perfil dos frequentadores. “Muitas pessoas chegam por curiosidade, para conhecer o mercado, e acabam se tornando clientes frequentes. É um público novo que está redescobrindo este patrimônio da cidade”, observam.
Segundo elas, a modernização do espaço veio acompanhada de avanços para comerciantes e consumidores. “As exigências sanitárias ficaram mais rigorosas nos últimos anos. Isso contribuiu para melhorar o ambiente, trazendo mais segurança e qualidade para todos”, destacam.
Recém-formada em Agronomia e Zootecnia, Camila afirma que o ambiente do mercado oferece algo que nenhum centro comercial moderno consegue reproduzir. “Todos os dias ouvimos aqui histórias fascinantes sobre Anápolis, seus moradores e suas tradições. É uma experiência muito rica. Não troco este lugar por nenhuma loja de shopping”, afirma a balconista, que também coloca seu talento culinário a serviço das delícias servidas no Café Napolitano.
Memória Permanente
Atualmente, o Mercado Municipal Carlos de Pina abriga cerca de 100 comerciantes e recebe, diariamente, aproximadamente 1,5 mil visitantes. Mesmo diante da expansão dos supermercados, dos modernos centros de compras e do comércio digital, mantém-se como um espaço economicamente relevante e culturalmente singular na vida anapolina.
Ao completar 75 anos de existência, em dezembro deste ano, o Mercadão celebrará muito mais do que a longevidade de uma construção histórica. Celebrará as centenas de famílias que encontraram em seus corredores oportunidades de trabalho, sustento e realização. Celebrará os comerciantes que atravessaram crises econômicas, mudanças de hábitos de consumo e transformações urbanas sem abandonar suas origens. Celebrará, ainda, os filhos e netos que escolheram dar continuidade aos negócios iniciados pelas gerações anteriores.
Acima de tudo, celebrará personagens como Dona Maria Avelino, testemunha viva de grande parte dessa trajetória. Em suas lembranças estão episódios e histórias que ajudam a contar a formação de Anápolis.
Porque o Mercado Municipal Carlos de Pina nunca foi apenas um centro de comércio. Ao longo de sete décadas e meia, tornou-se um espaço de convivência, de encontros e de construção de memórias coletivas. Um patrimônio que ultrapassa o valor arquitetônico para assumir uma dimensão muito mais profunda: a dimensão humana.
Talvez seja justamente essa a razão de sua permanência. Enquanto houver pessoas dispostas a preservar suas tradições, compartilhar suas histórias e transmitir seu legado às novas gerações, o Mercadão continuará sendo um dos lugares onde Anápolis ainda encontra parte de sua identidade
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Aos 12 anos (1969) eu já trabalhava lá no Mercado Municipal, comprava laranjas que vinham do estado de São Paulo das cidades de Guaimbé e Bebedouro na banca do Sr Joaquim já falecido e seus filhos ainda vivos, Franklin (85 anos trabalhando com sua filha Flávia e outros familiares nas feiras livres de Anápolis vendendo doces diversos e também tinha o filho Neli lá na banca de laranjas)