O valor do trabalho pode mudar de épocas em épocas, e de cultura para cultura. Recentemente ouvi uma frase repleta de sátira sobre este assunto: “Na hora de comer, comer; na hora de dormir, dormir; na hora de trabalhar, pernas para o ar, porque ninguém é de ferro”.
O livro “Antologia Brasil – A história contada por quem viu”, é uma coletânea organizada pelo historiador Jorge Caldeira, que reúne documentos e testemunhos na forma de escritos, manuscritos ou impressos, e que traz um painel vigoroso e acessível da história nacional, com base nos depoimentos de quem vivenciou e construiu a narrativa tupiniquim.
Num dos 173 textos reunidos, Caldeira aborda um dos sentimentos mais presentes no Brasil Império, e que ainda hoje reflete de forma danosa na cosmovisão cultural brasileira. O texto foi escrito por Thomas Ewbank, viajante americano em 1846: “No Brasil predomina a escravidão negra e os brasileiros recusam, com algo semelhante ao horror os serviços manuais (…) Interrompendo um jovem nacional de família respeitável e em má situação financeira sobre porque não aprende uma profissão, há dez probabilidades contra uma de ele perguntar se o interlocutor está querendo insultá-lo. “trabalhar? Trabalhar?” gritou um deles, “para isto temos os negros!”
De fato, muita ideia errônea tem sido construída em torno do trabalho. Para Aristóteles era uma atividade que deveria ser delegada às classes inferiores e que deveria ser deixado para os escravos porque “todos os trabalhos pagos absorvem e degradam o espírito.” Este conceito, lamentavelmente penetrou na mente europeia por anos, até ser desafiada pela Reforma Protestante no século XVI.
O desprezo pelo trabalho estava embutido no arquétipo da cultura do Império Romano, e esta mesma visão caminhou pela era vitoriana, influenciando ainda hoje a forma como vemos o trabalho. A moral calvinista, formadora do pensamento norte americano, conseguiu transformar um pouco esta visão deturpada, mas ainda hoje, na elite brasileira, há uma tendência de associar trabalho a algo desprezível.
Talvez isto explique a falta mão de obra no Brasil. O trabalho braçal foi desvalorizado pela burguesa elite brasileira que sempre pagou mal, e a classe mais pobre entendeu equivocadamente que não trabalhar é, de certa forma, uma virtude desejada. O trabalho nem sempre está atrelado a algo positivo, e se for possível ficar com o mínimo e não precisar trabalhar, isto pode ser visto como algo, digamos, inteligente…
A Bíblia afirma que pela preguiça e frouxidão do homem, desaba o teto da casa sobre sua família. Um povo não orientado ao trabalho, empobrece, desonra a vida, enfraquece e desatina a nação. Nossa esperança é que, depois de tantos anos da abolição da escravatura (1888) o conceito e honra do trabalho seja restaurado no inconsciente coletivo de nossa nação, afinal, a ociosidade é como ferrugem: consome muito mais que o trabalho. “De trabalho não há quem morra. De ociosidade, sim. Porque o homem nasceu para trabalhar como a ave nasceu para voar!” (Lutero)
A doutrina da criação registrada no livro de Gênesis, inclui dentre as tarefas humanas o trabalho, e isto antes da queda da raça humana. Ainda no Éden Deus disse ao homem: “Tenham domínio sobre os peixes, sobre as aves, sobre os animais domésticos e selvagens e sobre os animais do campo” (Gn 1.26). Assim como o sexo é algo que antecede a queda, trabalho não é resultante do pecado. Deus destinou o homem a dar nome a todos os animais (Gn 2.19-20), o que implicava em atividade intelectual e tarefa a ser realizada.
Quando o trabalho encontra este sentido da sacralidade e é visto com um bem supremo ou vocação tudo passa a ser feito com maior sentido, porque é realizado, antes de mais nada, para Deus. Possui teleologia e sacralidade.
Junte-se aos grupos de WhatsApp do Portal CONTEXTO e fique por dentro das principais notícias de Anápolis e região. Clique aqui.
