Essa máxima, presente em diversas tradições filosóficas – e de cunho aparentemente ético e religioso – não foi escrita por um mestre da moral, mas é atribuída ao personagem Michael Corleone, do clássico O Poderoso Chefão. O objetivo é demonstrar que a sobrevivência e o poder dependem da capacidade de manter a mente fria. No filme, dirigido por Francis Ford Coppola, o famoso gangster não a utiliza para ensinar moral. No contexto da máfia, o raciocínio por trás da frase é puramente estratégico.
A frase não reflete, necessariamente, um coração sensível e bom, mas pode ser instrumento de guerra de pessoas implacáveis e frias, como o personagem do escritor americano Mario Puzo foi retratado no filme. Na narrativa, Corleone é de um pragmatismo cruel.
No estoicismo, mestres como Marco Aurélio e Sêneca pregavam que a mente deveria ser como uma fortaleza. Se você permitir que o comportamento de seu inimigo altere o seu estado interior, perderá a liberdade. O ódio era uma perturbação que diminuía a razão.
Já o filósofo Sun Tzu ensina no livro A Arte da Guerra que um general nunca deve atacar por raiva. A raiva é causa comum de decisões militares desastrosas, mas o bom estrategista observa, calcula e age.
Quando você odeia alguém, entrega a essa pessoa a chave do seu processo de pensamento. Assim, odiar uma pessoa é permitir que ela controle suas emoções e, consequentemente, suas decisões.
Na visão pragmática, é preciso entender como o inimigo funciona para superá-lo, o que envolve conhecer suas forças, fraquezas e padrões. Se você o odeia, para de analisá-lo e reaja a ele, pois o ódio é reativo. Ao reagir, você fica sempre um passo atrás, jogando o jogo de quem você despreza.
Na obra Além do Bem e do Mal (1886), o filósofo alemão Friedrich Nietzsche já havia dito que “Quem luta com monstros deve cuidar para não se tornar um.” Quando você permite que o ódio dite o raciocínio, você começa a adotar os mesmos métodos, a mesma mesquinhez e a mesma visão de mundo de quem você considera inimigo. Mas o “inimigo” deve ser visto como um problema técnico. É importante manter o cérebro frio.
Enquanto a literatura sugere evitar o ódio por questão estratégica, Jesus nos ensina a superar o ódio por transformação do coração e para não perder a alma, já que o ódio se transforma em prisão. O sábio evita o ódio porque ele é ineficiente. Ele drena a paz e a inteligência emocional de quem o mantém. Ou seja: evitar o ódio não é só uma estratégia de guerra.
Jesus também sugere uma “terceira via” mais difícil que o desapego estratégico, mas muito mais poderosa: “Amai os vossos inimigos, bendizei os que vos maldizem” (Mateus 5.44). Por que fazer isso? Não é por ingenuidade. Jesus sabia que o ódio tem uma característica parasitária: ele requer que você pense no inimigo o tempo todo.
Ao amar seu inimigo, você se liberta da influência que ele exerce. Você deixa de agir por reação (o que o inimigo espera) e passa a agir por convicção (o que você escolhe). Se Michael Corleone recomenda não odiar para ser mais eficiente na crueldade, Jesus nos ensina a não odiar para sermos livres. Ao superar o ódio, você retoma seu próprio governo e preserva a clareza para enxergar o que é eterno.
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