Os consultórios e ambulatórios, no passado, eram tidos como santuários. É para lá que as famílias iam em busca de socorro, de orientações sobre qualidade de vida e de aconselhamentos que faziam de médicos e pacientes pessoas com liberdade, relação familiar. Hoje não é mais assim, salvo raras exceções. Esses ambientes têm se tornado hostis, sem humanismo, mecânicos.
Os nervos andam à flor da pele, tanto dos profissionais quanto dos pacientes. A tolerância desapareceu. Não são raros os registros de desentendimentos entre as partes. Alguns descambam para o descontrole. Há casos com intervenção policial, devido a agressões físicas de ambos os lados. Ou seja, consultórios, clínicas e hospitais têm se tornado territórios de desavenças, quando o correto seria o entendimento e a paz social. Claro, não é a maioria, mas o aumento preocupa.
Os números são graves. Na avaliação de 2024, foram registrados no Brasil 4.562 boletins de ocorrência de violência contra médicos, cerca de 12 casos por dia, ou um a cada duas horas. O assunto já chegou ao Congresso.
O Senado aprovou, no mês passado, Projeto de Lei que prevê endurecimento das penas para crimes cometidos contra profissionais da saúde e da educação no exercício de suas funções ou em razão delas. Essas agressões vão de descortesias e ataques verbais até fatos graves ou letais, que giram em torno de descontentamentos de clientes, intolerância de médicos e falta de moderação entre as partes.
Tudo isso procede, mas há o outro lado: Quando o Congresso irá se importar também com o paciente, vítima de erro médico, que fica horas nas filas, com dores e muito sofrimento, e volta para casa sem atendimento? A mídia mostra, todo dia, casos graves, pessoas que morrem por maus procedimentos de profissionais despreparados. A não ser a família, ninguém mais chora por estas criaturas que se tornam apenas números.
É gente que entra no centro cirúrgico para simples operação reparadora e sai em urna mortuária. É gente a quem se indicam medicamentos errados e sofre danos às vezes irreparáveis, mulheres assediadas no silêncio de consultórios, tocadas indevidamente, violentadas em suas dignidades. O Congresso tem de ver isso também.
O desejo é que as relações médico/paciente voltem a ser como antes, baseadas no respeito mútuo e na consciência de que o paciente precisa do médico, mas o médico também precisa do paciente. Antes que tais fatos tristes passem a ser vistos como normais e a sociedade caminhe para situações inconcebíveis na saúde comunitária.
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