
Poucas vezes na história econômica de Goiás e de outros estados com população menor, uma mudança legislativa carrega potencial tão transformador — um verdadeiro terremoto — quanto a Reforma Tributária que começa a entrar em vigor no país. Seus defensores destacam, com razão, a simplificação do sistema, a redução de distorções e a modernização da tributação brasileira. Afinal, foram editadas mais de 460 mil normas tributárias desde 1988. Contudo, enquanto o país discute os benefícios da reforma, uma pergunta inquietante permanece sem resposta: quem está olhando para os efeitos regionais?
Há quarenta anos, Goiás possuía uma economia fortemente dependente da agropecuária. Produzia riqueza no campo, mas tinha dificuldade em transformá-la em empregos industriais, renda urbana e desenvolvimento tecnológico. Foi então que surgiram programas de incentivos fiscais, como o Fomentar, instituído em 1984, e posteriormente o Produzir. Não foram meros benefícios tributários, mas instrumentos de desenvolvimento regional. Graças a essas políticas, centenas de indústrias vieram para Goiás.
Vieram empresas farmacêuticas, alimentícias, automotivas, químicas, de fertilizantes, embalagens, colchões, mineração e muitos outros setores. Cidades cresceram. Distritos industriais foram ocupados. Milhares de empregos foram criados. Mas a geografia nunca deixou de existir. Goiás continua longe dos grandes portos e dos maiores mercados consumidores do país, enfrentando elevados custos logísticos para trazer insumos e distribuir produtos. Durante décadas, os incentivos ajudaram a compensar essas desvantagens. E agora, José?
Sim, e com a nova lógica tributária baseada no destino do consumo, haverá mudanças inevitáveis. Empresas que antes aceitavam operar em regiões mais afastadas poderão rever sua permanência. Se a vantagem tributária desaparece, a logística volta a falar mais alto. Levantamentos preliminares indicam que mais de 500 indústrias goianas poderão enfrentar desafios de competitividade nos próximos anos. Muitas concluirão que faz mais sentido produzir perto dos grandes centros consumidores. Nossa desindustrialização, já em curso, tende a acelerar.
E o que acontecerá com o fechamento ou a mudança dessas indústrias? A resposta não se resume a números contábeis. Estamos falando de mais de 60 mil empregos, arrecadação municipal, renda familiar, consumo local e oportunidades para futuras gerações. Ninguém defende a perpetuação de distorções tributárias. O Brasil precisava simplificar seu manicômio tributário. Entretanto, a busca pela eficiência nacional não pode ignorar os efeitos regionais. Países continentais exigem políticas que reconheçam suas desigualdades geográficas e econômicas.
A grande questão não é se a Reforma Tributária é necessária. A questão é saber se haverá mecanismos suficientes para evitar que estados que construíram sua industrialização ao longo de décadas sejam empurrados para um processo gradual de desindustrialização. As chaminés das fábricas não fazem discursos. Não participam de audiências públicas. Não votam. Elas apenas funcionam ou param. E quando uma chaminé se apaga, o silêncio ao seu redor costuma ser muito mais barulhento do que qualquer debate político. E todo o esforço para industrializar Goiás poderá ter sido em vão. Cruel demais!
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