Formato vertical ganha espaço entre brasileiros e transforma consumo de entretenimento
Novelas verticais de até dois minutos estão conquistando espaço entre os aplicativos mais baixados do Brasil. O formato, conhecido como microdrama, nasceu na China e aposta em histórias rápidas, reviravoltas frequentes e capítulos pensados para o consumo pelo celular.
A indústria global de microdramas movimentou US$ 11 bilhões em 2025 e deve dobrar de tamanho nos próximos quatro anos, alcançando cerca de US$ 22 bilhões, segundo estimativas da consultoria Omdia.
O Brasil aparece entre os mercados mais promissores para o formato. Um levantamento da Mintech, com uma amostra de 5 milhões de brasileiros, identificou 15 aplicativos de microdramas entre os 100 mais baixados da Google Play no país nos últimos dias de junho. Cinco deles estavam entre os dez primeiros colocados.
Histórias rápidas
A lógica dos microdramas é simples. Os episódios geralmente duram entre um e dois minutos e são produzidos na vertical, com a tela do celular como principal formato de exibição.
Além disso, cada capítulo costuma terminar em um momento de tensão ou revelação. Assim, o espectador recebe um novo gancho e é incentivado a continuar assistindo.
Os enredos também seguem uma fórmula bastante acelerada. Romances, vinganças, heranças, segredos familiares, identidades escondidas e reviravoltas aparecem com frequência nas histórias.
Um exemplo brasileiro é “Só mais uma vez”. A produção tem 90 episódios e concentra a trama em pouco mais de 13 minutos. Entretanto, a partir do 11º capítulo, o espectador precisa pagar para continuar acompanhando a história.
O modelo começou na China no início da década de 2020 e ganhou espaço rapidamente em outros países. No Brasil, plataformas de vídeo e empresas tradicionais de entretenimento também passaram a investir no formato. O Globoplay, por exemplo, já produz conteúdos seriados de curta duração.
Curiosidade paga
O sucesso dos microdramas também está ligado ao modelo de monetização. Depois de alguns capítulos gratuitos, o usuário pode precisar assistir a anúncios, cumprir tarefas ou adquirir moedas virtuais para desbloquear novos episódios.
As moedas podem ser obtidas por meio de atividades dentro dos próprios aplicativos. Também é possível comprá-las com dinheiro real.
Esse sistema aproxima os microdramas dos jogos para celular. Ao transformar dinheiro em créditos digitais, as plataformas reduzem a percepção imediata do gasto e estimulam novas compras para acompanhar a história. O mecanismo é conhecido como “payment decoupling”, ou desacoplamento do pagamento.
Além disso, a estrutura dos episódios favorece o consumo recorrente. Como os capítulos são curtos, o usuário pode assistir a vários deles em sequência ou retornar ao aplicativo diversas vezes durante o dia.
Atenção disputada
O potencial do formato aparece também no tempo de uso dos aplicativos. Nos Estados Unidos, a ReelShort registrou média de 35,7 minutos diários por usuário no quarto trimestre de 2025.
O resultado ficou acima dos números registrados no celular por plataformas tradicionais no mesmo período: 24,8 minutos da Netflix, 26,9 minutos da Amazon Prime Video e 23 minutos do Disney+.
No Brasil, o crescimento já desperta a atenção do mercado. Entre os aplicativos que apareceram no Top 100 da Google Play estavam PineDrama, TikTok Lite Séries, Reelife, ReelShort e Sua Novela, todos entre os dez primeiros colocados no levantamento citado.
O formato também começa a receber investimentos de empresas tradicionais. A Globo, por exemplo, passou a produzir microdramas para distribuição digital, enquanto outras produtoras e plataformas ampliam a oferta de novelas verticais.
Embora ainda não existam estudos que comprovem uma relação causal entre microdramas e dependência, pesquisadores já observam características do formato que podem favorecer o consumo excessivo, como suspense contínuo, recompensas rápidas, facilidade de acesso e estímulos constantes.
Dessa forma, as chamadas “novelinhas” deixaram de ser apenas uma adaptação das novelas tradicionais. O formato criou um novo modelo de entretenimento, baseado em histórias rápidas, consumo pelo celular e estratégias para manter o espectador conectado.
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