
Com este artigo presto uma singela homenagem ao meu mestre maior, um dos maiores economistas e pensadores brasileiros dos últimos 35 anos: Stephen Kanitz, que foi para o eterno recentemente. Professor da USP e autor renomado de vários livros sobre economia entre os quais “O Brasil que dá Certo – 1995 a 2005”, mudou a forma de pensar a economia do país. Previu, com maestria, o futuro de nosso país e foi para o eterno, contrariado, com o que aqui assistiu e deixou. Sua morte representa mais do que a partida de um economista, escritor e professor. Representa o silêncio de uma das últimas vozes que ainda ousavam pensar o Brasil, com inteligência.
Kanitz conhecia, por demais, os problemas nacionais e os combatia: burocracia sufocante, desperdício público, baixa produtividade, aparelhamento político e um Estado que atrapalha mais do que ajuda. Ainda assim, recusava-se a aceitar o conformismo como destino nacional. Seu livro O Brasil que Dá Certo era quase um grito contra a cultura da derrota instalada no país de então. Enquanto o noticiário explorava escândalos, crises e fracassos, ele apontava para um Brasil invisível: empresários que produziam, trabalhadores que sustentavam a economia, agricultores que alimentam o mundo, indústrias que sobreviviam apesar do peso brutal dos impostos e empreendedores que resistiam mesmo sendo mal tratados pelo próprio sistema.
Sim, verdade é que o país escolheu o caminho oposto daquele que ele defendia. Em vez de premiar eficiência, estimulou a dependência; em vez de valorizar produtividade romantizou o conflito entre capital e trabalho; em vez de simplificar, criaram novas estruturas, novas despesas, novas normas, privilégios e complexidade tributária. Assim, o empreendedor brasileiro tornou-se um sobrevivente porquanto trabalha para sustentar uma máquina pública pesada, lenta e insaciável. Produzir exige coragem; empregar virou risco; investir virou aposta cercada de insegurança jurídica e instabilidade fiscal. Bravo Kanitz!
Enquanto isso reconhecia que parte da sociedade beneficiada parece anestesiada. O debate público degrada-se em polarizações rasas, narrativas ideológicas e guerras culturais intermináveis, enquanto questões fundamentais como educação de qualidade, produtividade, inovação, competitividade e gestão pública eficiente permanecem sem solução e vaticinava: nenhum país prospera distribuindo riqueza que ainda não produziu, nenhuma sociedade se sustenta demonizando quem investe e gera empregos, nenhuma nação se desenvolve trocando mérito por populismo permanente.
Talvez sua maior frustração fosse perceber que o Brasil continua desperdiçando seu potencial histórico: potência agrícola, mineral, energética e humana, mas seguindo convivendo com infraestrutura precária, baixa qualidade educacional e crescimento medíocre há décadas. Acredito, porém, que sua maior contrariedade pode estar escrita num dos seus últimos artigos publicados sob título de “Do Caminho da Prosperidade para o Caminho da Servidão” no jornal Gazeta do Povo, em 04/11/2022, bem como no seu” Blog para se pensar”, onde incitava seus leitores a pensar o país. Sim, sua morte nos deixa uma pergunta incômoda: o Brasil ainda quer dar certo? Pelo andar da carruagem, parece que não, garantia!
ATÉ MAIS, MESTRE!
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