Entre os clubes goianos, a Associação Atlética Anapolina lidera o número de ações trabalhistas no Tribunal Regional do Trabalho
O sonho do hexacampeonato mundial foi adiado, mas o futebol brasileiro segue em ritmo acelerado. Enquanto milhões de torcedores acompanham os campeonatos nacionais, milhares de atletas continuam em busca de espaço no esporte. Atualmente, o Brasil conta com cerca de 850 clubes profissionais e mais de 400 equipes amadoras registradas na Confederação Brasileira de Futebol (CBF).
Por trás dos gols e títulos, porém, existe uma profissão marcada por contratos, lesões, transferências e disputas judiciais. Dados do Tribunal Regional do Trabalho da 18ª Região (TRT-GO) mostram que, entre 2016 e 2025, foram ajuizadas 294 ações envolvendo atletas profissionais em Goiás. Somente em 2025, já são 53 processos.
Rotina exigente
O ex-zagueiro Ernando Lopes, que atuou por clubes como Goiás, Internacional, Sport, Bahia, Vasco e Guarani, afirma que a profissão exige muito mais do que talento dentro de campo. Treinos diários, concentrações, viagens e um calendário intenso fazem parte da rotina dos jogadores, que frequentemente trabalham em finais de semana e feriados.
Segundo ele, a profissionalização das relações trabalhistas avançou após a Lei Pelé, fortalecendo os direitos dos atletas. Ernando também destaca a importância do planejamento financeiro, já que a aposentadoria costuma ocorrer de forma precoce.
Direitos garantidos
Assim como outros trabalhadores, os atletas têm direito a salário, férias, 13º, FGTS e contribuição previdenciária. O juiz do Trabalho Celso Moredo, coordenador do Juízo Auxiliar de Execução do TRT-GO, explica que o contrato do atleta tem prazo determinado, entre três meses e cinco anos, além da possibilidade de remuneração por direito de imagem em contrato separado.
O magistrado lembra ainda que a pausa para hidratação em partidas disputadas sob calor intenso surgiu de uma ação coletiva do sindicato dos atletas e, posteriormente, passou a integrar competições internacionais. “O atleta é um trabalhador e deve ter sua saúde protegida durante o exercício da profissão”, destaca.
Disputas frequentes
O juiz explica que a Justiça Desportiva atua apenas em questões disciplinares, como expulsões, doping e racismo, enquanto os conflitos envolvendo contratos de trabalho, salários e rescisões são de competência exclusiva da Justiça do Trabalho.
Entre as principais demandas estão o pagamento de verbas rescisórias, multas trabalhistas e depósitos do FGTS.
Segundo Celso Moredo, muitos clubes contratam atletas durante competições mesmo sem possuir condições financeiras para cumprir todas as obrigações contratuais ao término da temporada.
Dos processos analisados pelo TRT-GO na última década, aproximadamente 27% envolveram multas previstas na Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), enquanto cerca de 19% discutiam questões relacionadas ao FGTS.
Entre os clubes goianos, a Associação Atlética Anapolina lidera o número de ações trabalhistas, com 47 processos registrados no período. Em seguida aparecem o Itumbiara Esporte Clube, com 39 ações, além de tradicionais equipes como Vila Nova e Goiás.
Os números revelam que, embora seja movido pela paixão e pelo espetáculo, o futebol também é um ambiente de trabalho que exige segurança jurídica, respeito aos contratos e garantia dos direitos de quem faz do esporte sua profissão. (Com informações do TRTGO)
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